EUA vêem riscos em manobra militar e estatizações

A intenção de estatizar companhias telefônicas e petrolíferas, algumas das quais contam com recursos americanos, e o projeto de enviar tropas para a Bolívia são algumas das medidas anunciadas pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que podem gerar temores em Washington. É essa a opinião de analistas norte-americanos ouvidos pela BBC Brasil a respeito de ações que o líder venezuelano, que toma posse nesta quarta-feira, poderá tomar em seu terceiro mandato. "A relação política entre Estados Unidos e Venezuela tem sido tensa, mas os laços econômicos têm sido prósperos. Com o anúncio de que pretende nacionalizar empresas, Chávez está avançando por um novo terreno, a economia, que é uma área bem mais sensível", diz Michael Shifter, analista político do instituto Inter American Dialogue.No entender de Shifter, ainda é preciso ver no que consiste exatamente o projeto estatizante do líder venezuelano, mas ele acredita que o plano de nacionalizar companhias abre margem para uma maior deterioração nas relações entre os dois países."Dia triste" O porta-voz da Casa Branca, Tony Snow, disse que o processo de nacionalizações "tem um longo e inglório histórico de fracasso em todo o mundo" e acrescentou que o governo americano "apóia o povo da Venezuela", mas disse que esta terça-feira, depois que Chávez manifestou sua intenção de estatizar empresas, "foi um dia triste" para os venezuelanos.Em sua edição de terça, o jornal americano Washington Post comentou a suposta intenção do líder venezuelano de nacionalizar poços de petróleo na região nordeste do país, que foram desenvolvidos por empresas internacionais como Exxon Mobil, BP e Chevron.O diário comenta ainda que a companhia energética americana AES Corp. também poderia ser afetada pelos planos estatizantes de Chávez, uma vez que conta com uma participação de 86% na firma energética particular venezuelana Eletricidad de Caracas.A rede de TV CNN afirmou que a empresa de telefonia americana Verizon conta com 28% de participação na telefônica venezuelana CANTV. Segundo a emissora, a empresa não quis, no entanto, comentar a suposta intenção de Chávez de estatizar companhias do setor, uma vez que o governo ainda não fez qualquer comunicado oficial neste sentido.No entender de Riordan Roett, diretor do programa de Estudos Latino-Americanos da Universidade John Hopkins, de Washington, o programa estatizante não representa uma ameaça para os Estados Unidos."Mas o anúncio de que ele pretende enviar tropas à Bolívia é algo mais preocupante", afirma Roett. O líder a Venezuela disse recentemente que não "ficaria de braços cruzados" se houvesse tentativa de depor o governo do presidente boliviano, Evo Morales. O presidente venezuelano aludia à onda de protestos em diferentes departamentos (Estados) da Bolívia.Segundo Roett, ainda que isso não represente uma ameaça direta aos Estados Unidos, "ter tropas estacionadas em outros países é algo sem precedentes na região". De acordo com o analista, "isso só ocorreu na América Latina quando países da região estavam em guerra". Roett acredita que se Chávez levar adiante sua intenção, "ele estará rompendo com uma tradição histórica, o que pode se tornar algo perigoso".De acordo com Peter DeShazo, diretor para as Américas do instituto Center for Strategic and International Studies, o tema desperta atenção dentro da própria Venezuela, "onde a oposição do país já reagiu de forma bem negativa". Segundo ele, "os vizinhos da Bolívia também estão observando o assunto com atenção".Segundo DeShazo, mais do que temer por seus interesses no país, os Estados Unidos receiam por uma suposta crescente concentração de forças nas mãos do líder venezuelano."Existe uma tendência geral de um Estado que cada vez mais concentra poder tanto em termos econômicos como políticos." Petróleo Riordan Roett acredita que a ameaça já feita no passado por Chávez de cortar ou reduzir o fornecimento de petróleo feito pelo país à Venezuela soa mais como uma bravata, mesmo porque o país também depende fortemente dos Estados Unidos, lembra, citando a empresa Citgo, subsidiária da estatal petrolífera venezuelana Petróleos de Venezuela (PDVSA), que conta com 14 mil postos de gasolina nos Estados Unidos.Para Michael Shifter, independentemente de quaisquer medidas de Chávez que possam ser vistas como antiamericanas, os Estados Unidos não devem cair na tentação de adotar políticas que possam ser vistas como a criação de uma frente antivenezuelana."O melhor que os EUA podem fazer é buscar boas relações com outros países da região, como o Brasil, a Argentina e o Chile." De acordo com Shifter, a ofensiva política de Chávez na região se deve também à omissão americana em relação à América Latina."Os americanos precisam dar mais auxílio aos governos da região do que têm dado até o momento. Os Estados Unidos não gastaram capital político na região. É preciso reforçar a agenda comercial com os países latino-americanos, que estancou. Mas é improvável que isso mude muito, ainda mais com a Casa Branca concentrada em outros temas, como a guerra no Iraque."

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