Hossein Mersadi/ AP
Hossein Mersadi/ AP

EUA X Irã: Sete dias que quase levaram a uma guerra

Como a administração Trump recebeu memorandos de ações iranianas e reagiu

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2020 | 04h00

O avião estava atrasado e a equipe de atiradores estava preocupada. O voo 6Q501 da Cham Wings Airlines, programado para decolar de Damasco às 19h30 para Bagdá, segundo um informante no aeroporto, ainda estava no solo e o passageiro alvo não havia aparecido.

As horas passavam e alguns envolvidos na operação se perguntavam se ela deveria ser cancelada. Então, pouco antes de as portas do avião serem fechadas, um comboio de carros parou na pista carregando o general Qassim Suleimani, que subiu a bordo com sua comitiva. 

O avião pousou no Aeroporto Internacional de Bagdá às 00h36. Esperando no final do corredor estava Abu Mahdi al-Muhandis, um oficial iraquiano encarregado de milícias e próximo de Teerã. Dois carros que transportavam o grupo partiram - seguidos pelos drones americanos. Às 00h47, o primeiro de vários mísseis atingiu os veículos, que pegaram fogo, deixando dez mortos.

A operação que matou Suleimani, comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária do Irã, levou os EUA à beira de uma guerra com Teerã e mergulhou o mundo em sete dias de incertezas. 

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Os líderes europeus, enfurecidos por serem mantidos no escuro, lutaram para impedir que o Irã entrasse em uma escalada. Mas os EUA também enviaram mensagens secretas por meio de intermediários suíços pedindo ao Irã que não respondesse com tanta força, pois Trump se sentiria compelido a ir mais longe. Depois o Irã respondeu - disparando 16 mísseis em bases que abrigam tropas dos EUA sem ferir ninguém. Uma mensagem dos suíços voltou, dizendo que esse seria o fim da represália por enquanto. A mensagem, transmitida a Washington cinco minutos depois de ser recebida, convenceu Trump a recuar.

Escalada

O confronto pode ter realmente começado por acidente. Durante anos, o Irã patrocinou forças no Iraque, competindo pela influência com as tropas americanas. Desde o outono, milícias apoiadas pelo Irã lançaram mísseis em bases iraquianas que abrigam tropas americanas, exaltando nervos muito mais do que causando danos.

Então, quando mísseis atingiram a base militar K1 perto de Kirkuk, em 27 de dezembro, matando um empreiteiro civil americano, Nawres Waleed Hamid, e ferindo vários outros, a única surpresa foram as baixas. Um americano estava morto, e o presidente enfrentava uma escolha. Ele concordou em atacar cinco locais no Iraque e na Síria dois dias depois, matando pelo menos 25 membros da milícia pró-iraniana e ferindo mais 50.

Em 31 de dezembro, manifestantes pró-iranianos invadiram o complexo da Embaixada dos EUA em Bagdá. Preocupado com as repetições da invasão da embaixada de 1979 no Irã, Trump e sua equipe ordenaram que mais de 100 fuzileiros navais fossem do Kuwait para Bagdá. Um memorando extremamente secreto começou a circular, assinado por Robert O'Brien, seu consultor de Segurança Nacional, listando alvos em potencial, e também uma opção mais provocativa: ter autoridades iranianas específicas como alvos fatais, entre eles estava Suleimani. O general morreu e veio o contra-ataque, que danificou um helicóptero, algumas tendas e outras estruturas. Na manhã seguinte, Trump deixou claro que não iria retaliar. 

Depois de sete dias de duelos de sabre, a marcha imediata para a guerra havia terminado. Porém, dentro do establishment da segurança, poucos consideram que a crise acabara. Nos próximos meses, eles esperam que o Irã se reagrupe e encontre meios de revidar. / NYT

 

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