Euforia na ilha

As novas regulamentações dos Estados Unidos que regulamentam viagens, seguros, importação de bens, remessas e telecomunicações e entraram em vigor ontem em relação a Cuba provocam as primeiras reações na ilha. Embora o noticiário tenha mencionado a novidade no final de sua edição, nas ruas a informação circula de boca em boca.

Yoani Sánchez, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2015 | 02h02

Lilianne Ruiz, jornalista independente, recebeu a notícia com entusiasmo, destacou que "esse fluxo de pessoas que virão, juntamente com o aumento também das remessas, significa um retorno do país à normalidade". Na opinião dela, "o governo cubano se enfraquecerá - a única coisa que lhe resta é a repressão e as restrições. Isto permitirá que as pessoas identifiquem melhor a origem de nossas dificuldades".

Um dos pontos mais atraentes das novas normas é a autorização para a construção de "instalações de telecomunicações dentro de Cuba, bem como instalações que conectem terceiros países a Cuba". A conectividade à internet e o barateamento da telefonia móvel são reivindicações que ganharam força no último ano, especialmente entre os jovens.

Yantiel Garcia, que estava na fila da Empresa de Telecomunicações de Cuba em Pinar del Río disse esperar que seu irmão, residente em Jacksonville, na Flórida, possa agora ajudá-lo com algum recurso tecnológico para conectar-se à rede. "Se os cartões de telefonia móvel americanos puderem ser usados aqui, meu irmão pagará um pacote de dados para eu navegar sem restrições".

"A bola agora está com o governo cubano", afirmou um funcionário da empresa, que não se identificou. Segundo explicou, "o número de visitantes dos EUA aumentará e o país terá de oferecer-lhes uma solução de conectividade durante o tempo em que permanecerem aqui". "É uma questão de negócios, não de ideologia."

As famílias que recebem remessas também serão beneficiadas com o aumento do limite do dinheiro que pode ser enviado a cada trimestre. A cifra anterior era de apenas US$ 500, mas agora poderão ser enviados até US$ 2 mil aos parentes radicados na Ilha.

Na sucursal do Banco Metropolitano da Calle Galiano, em Havana, ontem de manhã, vários idosos esperavam para fazer operações bancárias. Cristina Marrero, uma delas, explicou que tem um filho em Nova York e o outro em Atlanta. Para ela, a melhor notícia foi que agora será permitida a remessa de pacotes em grande quantidade. "Meus filhos têm móveis e eletrodomésticos que querem enviar para mim e essa é uma oportunidade", disse.

O analista político Julio Aleaga afirmou que, "desde 1959, o governo comunista tendeu a isolar o país do restantes do mundo e essas medidas integram cada vez mais Cuba aos valores ocidentais de livre mercado, democracia, participação, livre intercâmbio de pessoas e mercadorias entre os países". Em relação ao embargo americano, que ainda vigora, assinalou que "como o governo americano impôs sanções a funcionários venezuelanos e russos, isso deveria servir de paradigma para, em vez de estabelecer um embargo geral ao país, tratar de sancionar essas personalidades do governo militar envolvidas em violações de direitos humanos".

Viagem. Desde ontem, as companhias aéreas tampouco precisarão de uma licença especial para voar até Cuba. À tarde, nos terminais dois e três do Aeroporto Internacional José Martí, a notícia corria solta. Dayane Ríos esperava sua avó, que ficou três meses em Washington. "Agora teve de viajar via México porque não há voos diretos, mas espero que a próxima seja sem escala e mais barata", disse.

Embora nada conste quanto a uma possível conexão com o transporte marítimo, muitos também se entusiasmaram com a ideia. "Guarde um espaço no Malecón, que quando chegar a balsa toda Havana vai estar sentada no muro", dizia brincando um "bicitaxista" a outro, perto do Parque Maceo.

Dagoberto Valdés disse: "Sou favorável a tudo o que beneficia o cidadão cubano comum: a facilitação das viagens, a comunicação entre a sociedade civil daqui e de lá, entre um povo e outro, sou favorável a tudo o que melhora a qualidade de vida".

O diretor da revista independente Convivencia ressalvou: "Aos que afirmam que esse é oxigênio para o regime cubano, digo que não estou tão confiante, não acredito que o modelo cubano funcione e o oxigênio serve para seres vivos, não funciona em defuntos... De que vale oxigenar esse sistema se não funciona a estrutura da célula?".

Miriam Celaya acrescentou: "Me parece positivo que os americanos possam viajar para Cuba, que se amplie o contato entre os dois países, mas não sei se isso poderá ajudar a dar mais poder aos cubanos enquanto existirem todos estes controles por parte do governo, enquanto a livre iniciativa continuar demonizada e houver tantas proibições". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Yoani Sánchez é blogueira e colunista do Estado. O texto foi publicado no blog 14YMedio

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