Eurocéticos usam eleição alemã

Líderes que se opõem ao bloco se organizam para eleições do Parlamento Europeu em 2014

Michael Birnbaum, O Estado de S.Paulo - The Washington Post

26 de setembro de 2013 | 02h09

Os céticos sobre a relação da Alemanha com a União Europeia prometeram usar um resultado eleitoral inesperadamente forte para criar uma força política permanente num país onde as visões contra o euro eram consideradas desde sempre politicamente radioativas.

Um dia após os eleitores concederem à chanceler Angela Merkel seu resultado eleitoral mais expressivo desde 1990, com quase 42% dos votos, a líder alemã prometeu reforçar sua posição dura, mas flexível, com respeito aos resgates europeus. Mas, após anos em que a oposição ao euro foi politicamente perigosa na Alemanha, em razão da violenta história do país no século 20, os dissidentes podem ter, finalmente, conseguido triunfar após obterem, para o partido Alternativa para a Alemanha, que só existe há seis meses, 4,8% dos votos.

O resultado não conseguiu transpor a barreira de 5% para ingressar no Parlamento, mas foi suficiente para o conjunto de economistas e empresários de direita, que lideram o partido, começarem a planejar as eleições parlamentares europeias no próximo ano. Na ocasião, eles se uniriam a grupos como a Frente Nacional, da França, e o Partido da Independência, da Grã-Bretanha, na oposição a medidas que tirariam poderes dos 28 países da União Europeia e os transfeririam à capital do bloco, em Bruxelas.

Numa entrevista triunfante, mas por vezes excêntrica, em Berlim, o líder da Alternativa para a Alemanha, Bernd Lucke, disse que o partido profissionalizaria sua campanha, acrescentando que está confiante de que ele transporá o limite de 3% para ingressar no Parlamento Europeu.

Analistas disseram que o partido, provavelmente, teria captado ainda mais votos se não tivesse sido prejudicado pelos temores de que ele seria um grupo de extrema direita nos moldes dos partidos anti-imigrantes, como o Partido para a Liberdade, de Geert Wilders, na Holanda, ou a Aliança para o Futuro da Áustria, fundada por Joerg Haider.

Os líderes da Alternativa para a Alemanha combateram essa percepção, dizendo que querem ajudar os países do sul da Europa, mas que acreditam que os resgates, ou a existência contínua do euro, não são o melhor meio para esse fim.

No momento de seu triunfo, no domingo, eles foram criticados pela postagem de uma foto no Facebook de Lucke acenando, na qual o ângulo da câmera e o enquadramento sugerem que ele estava fazendo a saudação nazista. A foto, da qual não há evidências de que tenha sido postada com essas conotações em mente, foi removida.

"Merkel tentou manter a Europa fora da campanha, mas os seguidores da Alternativa para a Alemanha lhe negaram isso", disse Gero Neugebauer, um especialista em política alemã da Universidade Livre de Berlim. "O partido expressa visões de uma minoria de eleitores alemães, e ela deve ser levada a sério."

No domingo, num hotel elegante de Berlim, centenas de pessoas ligadas à Alternativa para a Alemanha reuniram-se para acompanhar os resultados eleitorais. No saguão, líderes do partido haviam colocado um furgão equipado com luzes de emergência azuis de ambulância, trazido para "salvar a Alemanha".

Os seguidores da Alternativa disseram que estavam finalmente dando voz a sentimentos antigos de um segmento do público alemão. "Ficamos muito traumatizados com a 2.ª Guerra. Existe toda essa conversa sobre amizade na Europa, mas ninguém leva a amizade tão a sério como nós, os alemães", disse Markus Egg, um professor de linguística na Universidade Humboldt, que concorreu a uma cadeira parlamentar em Berlim.

Após a eleição, Merkel disse que não mudaria suas políticas para a Europa e para a zona do euro, acrescentando que havia recebido um forte respaldo para suas políticas passadas. "Foi um voto forte pela responsabilidade com os interesses alemães na Europa e no mundo, mas também um voto por uma Europa unificada", disse ela.

*Michael Birnbaum é jornalista.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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