Daina Le Lardic/Parlamento Europeu/EFE
Daina Le Lardic/Parlamento Europeu/EFE

Político húngaro deixa partido de Orbán após escândalo sexual em Bruxelas

Aliado do ultraconservador admitiu ter participado do que a imprensa belga descreveu como 'orgia', em que estavam '25 homens nus', o que viola as normas sanitárias vigentes no país por causa da pandemia de coronavírus

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 21h50

BRUXELAS  - O político húngaro Jozsef Szajer, que foi a voz mais forte do primeiro-ministro conservador Viktor Orbán no Parlamento Europeu, deixou seu partido, no poder, após surgirem mais detalhes de como ele fugiu de uma festa privada em Bruxelas. Ele já havia renunciado ao cargo no Parlamento Europeu

O caso é uma vergonha para Orban, um nacionalista de direita cujo partido Fidesz defende sua visão dos valores tradicionais cristãos e familiares e fez campanha contra a comunidade LGBT do país. Orban disse ao jornal Magyar Nemzet que as ações de Szajer eram "indefensáveis". "Ele tomou a única decisão apropriada quando se desculpou e renunciou ao cargo de membro do Parlamento Europeu e deixou o Fidesz", disse Orban.

A polícia da Bélgica, onde o sexo e o casamento gay, bem como as festas sexuais consensuais entre adultos são legais, interromperam a festa na sexta-feira passada porque estava violando as restrições impostas pelo governo para conter o avanço do coronavírus. "Não sentamos para beber chá. As pessoas estão aqui para fazer sexo", disse o organizador da festa David Manzheley à agência Reuters, em seu apartamento, no centro de Bruxelas. 

A notícia de que um aliado próximo de Orbán foi preso em uma orgia gay, em Bruxelas, cidade que passa por um confinamento por causa da pandemia da covid-19, foi usada pela oposição e pela imprensa da Hungria como exemplo da hipocrisia do governo que ataca os direitos da comunidade LGBT.

A reúncia de Szajer, que era líder do partido de extrema direita Fidesz, à cadeira do Parlamento Europeu pode enfraquecer a posição da Hungria que, com a Polônia, atrasa a aprovação do orçamento da União Europeia (UE) ­- os dois países se recusam a acatar a cláusula que atrela liberação de verbas do bloco para conter a crise causada pela pandemia às boas práticas democráticas e do estado de direito.

"A renúncia de Jozsef Szajer", um grande conhecedor dos labirintos do Parlamento Europeu, onde ele ocupava uma cadeira desde 2004, "enfraquecerá a posição de Orban" na próxima cúpula da UE, considera o cientista político Zoltan Lakner, editor do semanário Jelen.

Szajer admitiu ter participado do que a imprensa belga descreveu como "orgia", em que estavam "25 homens nus", o que viola as normas sanitárias vigentes no país. O seu partido reajiu de forma lacônica ao dizer que "Jozsef Szajer tomou a única decisão possível", ao se referir a sua renúncia do Parlamento Europeu.

O site independente húngaro Telex afirmou que o problema de Szajer "é a mentira, a desonestidade". O Fidesz, lembrou o veículo de imprensa, “ataca as minorias sexuais húngaras, alegando que protege a 'normalidade'”.

"Enquanto ele (Szajer) está se divertindo em uma Bruxelas aberta para LGBTs, ele torna a vida de seus pares LGBT na Hungria uma miséria ao alterar a Constituição", tuitou Szabolcs Panyi, jornalista investigativo do Direkt36.

Tunde Hando, a mulher do político de 59 anos, integra o Tribunal Constitucional e chefiou o Gabinete Judicial Nacional entre 2012 e 2019.

Jurista, Szajer gosta de se apresentar como um dos arquitetos da Constituição húngara de 2011, após o retorno ao poder de Orbán. O texto inclui artigo que define “a instituição do casamento como a união entre um homem e uma mulher” ­- na ocasião, o partido de Szajer  disse que o governo defendia os “valores cristãos”.

Posição 'enfraquecida'

Durante a batida policial, o ex-deputado tentou fugir entrando em uma sarjeta, mas foi capturado. Em sua mochila, a Promotoria de Bruxelas diz ter encontrado ecstasy em quantidade não especificada. Szajer negou usar drogas e disse que se ofereceu para fazer um exame toxicológico no local, mas a polícia não o fez. "A polícia disse ter encontrado pílulas de ecstasy. Não eram minhas, não sei nada de quem as colocou lá ou como. Eu disse isso à polícia", disse ele, em nota.

Para a oposição húngara, o comportamento do aliado de Orbán "zomba" dos preceitos morais defendidos pelo governo. "Enquanto os políticos do Fidesz nos ensinam sobre o cristianismo e a família, eles levam uma vida completamente diferente", disse o ex-primeiro-ministro de esquerda Ferenc Gyurcsany nesta quarta-feira./AFP e Reuters 

 

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