Europa aguarda com ansiedade eleições na Alemanha

Toda eleição nos grandes países é observada com paixão, às vezes com temor, outras com esperança, pelos países vizinhos. Com mais razão quando essa eleição se dá em um país que faz parte da União Européia. E ainda mais, se esse país é o mais poderoso da Europa: a Alemanha. Ora, é exatamente o caso: dentro de 15 dias, em 22 de setembro, os alemães serão chamados para eleger seus deputados, ou seja, indiretamente, o futuro chanceler.Dois campeões estão concorrendo: o atual chanceler, Gerhard Schroeder, chefe dos social-democratas (SPD), que disputará seu cargo com o chefe da direita, Edmund Stoiber, que dirige astropas da CDU/CSU (democracia cristã). O combate opõe inicialmente dois homens: o primeiro-ministro Schroeder é umhomem brilhante, com experiência, simpático, enquanto seu adversário, o democrata-cristão Stoiber, é um pouco apagado esem carisma.É por isso que se esperava com voracidade o "duelo" na televisão (à moda americana) Schroeder x Stoiber. Todo o mundo esperava que o astuto e talentoso Schroeder devorasse cru o inábil Stoiber. Ora, nada disso aconteceu: descobriu-se um Stoiber combativo, inteligente, ágil e capaz de empurrar Schroeder para as cordas. De repente, as chances do socialista Schroeder diminuíram e seu adversário conservador tornou-se o "favorito" nas pesquisas.Felizmente, o socialista Schroeder beneficiou-se de um aliado inesperado e formidável. De onde? Do céu. O céu precipitou, naAlemanha, trombas d´água, com inundações desastrosas em todo opaís.Ora, durante essa cólera dos céus, Stoiber permaneceu distante fleumático, ausente e glacial. Ao contrário, Schroeder lançou-se no terreno, patinou na lama, tomou medidas, com um ar realmente emocionado, perturbado com os infortúnios que presenciou. Em suma, afirmou-se como "patrão" ou "general".Em poucos dias, Schroeder refez seu atraso. Hoje ainda está ligeiramente distanciado, mas é inteiramente capaz de alcançarseu adversário e até mesmo de ultrapassá-lo na linha dechegada.E a política externa? Na Europa, o conservador Stoiber, que jáfez parte dos "eurocéticos", converteu-se à Europa. Mas sementusiasmo.Queixa-se que Bruxelas passa o tempo usurpando asprerrogativas dos países europeus. Ele não faz objeção àspróximas etapas previstas pela União Européia. Aceita, porexemplo, a ampliação da União Européia com a integração de 10novos candidatos (dos países do Leste). No entanto, nesse ponto,Stoiber pára: não tem vontade que a Turquia entre na UniãoEuropéia. Por que essa desconfiança em relação à Turquia? Porqueela não preenche os critérios econômicos exigidos para a entradana União Européia? Ou por que a Turquia, país muçulmano, não éum país cristão?Mas é sobretudo em torno da França que as questões dediplomacia entornam nessa campanha eleitoral alemã. A íntimaamizade entre França e Alemanha, que, a partir de De Gaulle,Giscard d´Estaing e François Mitterrand constitui a espinhadorsal da Europa, essa amizade deteriorou-se muito desde que osocialista Gerhard Schroeder reina na Alemanha. Cabe dizer que,na França, o ex-primeiro-ministro Lionel Jospin, tambémsocialista, não fez nada para reativar o "motor franco-alemão" quando esse motor deu sinais de pane.Jacques Chirac, presidente da República, percebeu esseproblema. E logo multiplicou os sinais de amizade para ocandidato conservador, o democrata-cristão Stoiber. Foivisitá-lo: deu um aperto de mão com a força de um touro. Amensagem foi clara: Chirac demonstrou que, se o candidato dadireita, Stoiber, vencer no dia 22 próximo, a sublime amizadefranco-alemã chegará à apoteose. Obviamente, Stoiber também utilizou-se dessa deterioração daamizade entre Paris e Berlim. Considerou Schroeder o únicoresponsável por ela. Na verdade, Schroeder sempre mostrou-se hesitante na políticaexterna: um dia, abraçou Tony Blair, no dia seguinte, preferiuJospin, e depois esqueceu-se dos dois antes de reiniciar suacorte ao primeiro ou ao segundo. Não há dúvida de que essescaprichos e essas confusões acabaram. Schroeder percebeu operigo. E, há poucos dias, explica todo o tempo que adora osfranceses, que para ele Paris está acima de tudo etc. Essas são as últimas notícias da Alemanha, duas semanas antesdas eleições. Ninguém venceu ainda. Observemos apenas que há 15dias, os democratas-cristãos, certos de sua esmagadora vitória,previam formar um governo de coalizão com um pequeno partido dedireita, os "liberais". Hoje, a CDU continua confiante navitória, mas está menos triunfalista. E alguns já levantam umaoutra hipótese: se Stoiber vencer, sem dúvida será com umadiferença pequena. Nesse caso, por que não formar uma grandecoalizão que reúna os dois inimigos de hoje: a direita deStoiber (CDU) e a esquerda de Schroeder (SPD)?

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