Daniel LEAL-OLIVAS / AFP
Daniel LEAL-OLIVAS / AFP

Europa ainda tem a porta aberta para o Reino Unido

Britânicos podem escolher entre um novo plebiscito, de preferência até o fim de maio, e deixar a União Europeia até março

Timothy Garton Ash*

17 de novembro de 2018 | 05h00

Enquanto o Reino Unido agoniza sobre seu destino, estive em Bruxelas descobrindo o que os outros europeus pensam sobre o Brexit – e, portanto, sobre quais as opções reais que o Reino Unido ainda tem. Essencialmente, existem apenas duas. 

As portas da Europa ainda estão abertas para o Reino Unido ficar, se houver um segundo plebiscito, de preferência antes das eleições europeias no final de maio. Caso contrário, a maioria dos europeus preferiria que partíssemos no dia 29 de março, deixando tudo mais para ser resolvido mais tarde. É claro que é impossível generalizar as opiniões de cerca de 450 milhões de outros europeus, mas entre os líderes e representantes oficiais há um notável grau de consenso. 

Eles estão extremamente irritados com o tempo que o drama Brexit levou e quão pouco realista foi o lado britânico. Se você se senta com alemães conversando com franceses, ou poloneses com italianos, é como se o Brexit já tivesse acontecido. Seu tempo mental é gasto na Eurozona e na Itália, Trump e comércio, Alemanha pós-Merkel, seus próprios populistas e as próximas eleições europeias. “Em Berlim, o Brexit é a questão que vem em 10.º lugar”, diz um diplomata. 

Mesmo em áreas onde o Reino Unido costumava ser forte, como política externa e de segurança, o país já experimentou uma perda catastrófica de influência, como um helicóptero despencando do céu. Apesar das tentativas diplomáticas britânicas de dividir e governar, a unidade dos 27 se manteve e está sob tensão constante. 

Como resultado, a Irlanda teve efetivamente um veto sobre o resultado da negociação – provavelmente a primeira vez em uma longa história bilateral em que a Irlanda foi mais poderosa do que o Reino Unido. Essa unidade resulta de uma combinação incomum de força e fraqueza. A posição de barganha da UE é excepcionalmente forte, porque o Reino Unido colocou uma pistola na própria cabeça e disse “dê-nos um bom negócio ou vou atirar em mim mesmo”. 

Por causa de todas as outras crises, há também um sentimento generalizado de fraqueza. Isso se traduz em uma convicção, repetidamente tornada explícita por Angela Merkel, de que a posição do Reino Unido fora da UE deve ser encarada como pior do que a de qualquer outro de dentro, com uma punição que sirva de exemplo a outros. Por trás dessa frente unida, existem tendências diferentes. 

Uma pequena minoria deseja positivamente que o Reino Unido deixe a UE, de modo que a França, a Alemanha e outros Estados centrais possam avançar na criação de uma união federal. Outros dizem francamente que os ingleses – e eles conhecem muito bem o Reino Unido para identificar especificamente os ingleses, em vez dos escoceses, irlandeses ou galeses – precisam aprender uma lição.

Vocês ingleses devem se lembrar de erros passados, disse-me um ex-ministro das Relações Exteriores da UE, e descobrir como faz frio lá fora. Então, daqui a dez anos, vocês voltarão com os rabos entre as pernas. Um amigo holandês que trabalha para uma instituição europeia diz que os ingleses precisam passar por um “vale de lágrimas”. Valeu, muito obrigado, amigos. 

Mesmo que, estritamente falando, não exista algo como “acordo nenhum”, a UE quer evitar um Brexit improvisado e caótico. Tudo o que temos atualmente são sete páginas pontos de projetos, cheias de trivialidades, mas que preveem de forma crucial “ambiciosas disposições aduaneiras que se baseiem no território aduaneiro único previsto no Acordo de Retirada”. O planejamento atual prevê que esta declaração seja acordada até terça-feira, com os Estados-membros tendo 48 horas para avaliá-la. 

Acredita-se que o esboço do relacionamento nas próximas décadas está sendo tratado como uma crise de redação estudantil de última hora. Enquanto muitos em Westminster ainda falam alegremente de renegociação, as pessoas em Bruxelas estão convencidas de que a UE não estenderia o Artigo 50 apenas por mais conversas que não levem a lugar algum. Assim, a negociação real de um relacionamento futuro diferente teria que acontecer depois que o Reino Unido saísse – e, portanto, estaria em uma posição ainda mais fraca de negociação.

Além disso, se o Reino Unido fosse avançar muito mais na direção da “Noruega” – não “por enquanto”, mas para sempre – isso exigiria aceitar a liberdade de movimento. Para o crescente exército de britânicos, em todos os partidos e níveis sociais, que agora estão persuadidos de que o único bom caminho a seguir é um segundo plebiscito, a questão crucial é como a UE reagiria a uma votação parlamentar para fazer isso acontecer. 

As respostas que ouvi dos níveis mais altos da UE são totalmente reconfortantes. Embora não se possa absolutamente garantir com antecedência a atitude cada Estado membro, o consenso esmagador é que a UE estenderia o artigo 50 para dar tempo a qualquer plebiscito no qual uma das opções seria permanecer na UE nos termos atuais. Há uma dificuldade legal e política em torno das eleições europeias, para as quais uma redistribuição dos cargos dos eurodeputados britânicos para outros Estados-membros já foi decidida com a suposição de que o Reino Unido sairá em 29 de março do próximo ano. Mas isso, segundo concorda meu interlocutor, não deve ficar no caminho de um prêmio histórico muito maior. 

Muitos expressam a preocupação de que, se o Reino Unido votasse para ficar com uma estreita maioria – digamos, 52 a 48, ao contrário – o Reino Unido seria um parceiro ainda mais difícil e truculento, atrapalhando as coisas que o restante da Europa precisa fazer. Mas esse é um risco que eles assumiriam, embora com relutância. Então aqui está a boa notícia: as portas da Europa ainda estão abertas, se decidirmos na votação de um povo para mudar de ideia e ficar em casa. Caso contrário, os britânicos podem engolir o acordo que May negociou e viver infelizes para sempre. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

*É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE DE OXFORD E MEMBRO SÊNIOR DA HOOVER INSTITUTION, STANFORD UNIVERSITY

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