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Europa cobiça exilados da City de Londres

Na dianteira da disputa estão Frankfurt, Paris, Dublin e Madri

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2017 | 05h00

O Brexit já tem um ano. Os detalhes dessa retirada mal começam a ser discutidos, mas já provocam uma efervescência no mundo das finanças.

Londres, ou a City, até agora era o ninho, o berço e a incubadora de banqueiros e traders do continente. Ela eclipsava centros como Frankfurt, Paris ou Torino. Com o Brexit, os grandes bancos internacionais, gestores de fundos e outros especialistas em finanças com base na City londrina devem deslocar uma parte das suas atividades para outras grandes praças europeias.

Aguardamos assim uma nova variedade de “migrantes”. Homens e mulheres vestidos com elegância, pessoas muito asseadas, bem educadas, instruídas e distintas, geralmente belas, no lugar dessas hordas de maltrapilhos não muito limpos que embarcam em Trípoli ou na Eritreia, e até no Afeganistão, sempre de mau humor.

Os países europeus aguardam com avidez esses novos imigrantes. E estão na briga para atrair parte deles para si. Quatro cidades lideram a disputa: Frankfurt, Paris, Dublin e Madri. Estendem tapetes vermelhos, como no festival de Cannes, em sua honra. Presidentes da República, deputados, ministros e industriais brigam entre si. Um pandemônio. Cada um procurando valorizar as vantagens da sua cidade.

Diferenças. Frankfurt exibe “a seriedade alemã”, a solidez da sua indústria, a presença na cidade do BCE – Banco Central Europeu. Paris repete sem cessar que o Sena é uma maravilha, a Torre Eiffel é de aço, os restaurantes deliciosos e o campo em torno de Paris é belo como um quadro impressionista de Renoir ou Manet. Dublin oferece um argumento contundente: desprezando a solidariedade europeia, cobra impostos muito baixos próprios para seduzir os gigantes de Wall Street. E Madri não sabemos o que faz para atrair os migrantes da City.

Na liderança dessa corrida estão Frankfurt, muito bem colocada, e Paris, que se esforça como o diabo. A cada semana ficamos sabendo que Frankfurt recebe imigrantes da Standard Chartered, Daiwa, JP Morgan. O banco suíço UBS também está de olho em Frankfurt, embora Madri tenha também alguma chance.

E os franceses, estão em perigo? Absolutamente, responde Paris. A França aguarda 1.200 migrantes vindos do HSBC britânico. E em seguida virão empresas gestoras de ativos, como Morning Star, Eleva, Asset Management e outras. Na realidade é provável que as três grandes instituições financeiras tenham escritórios em dois locais no continente para acompanhar seu futuro desenvolvimento europeu.

Tudo leva a crer que Paris vai recuperar seu atraso, pois a França tem um poderoso trunfo: seu novo presidente, Emmanuel Macron. Da mesma forma que à época de Hollande, e mesmo de Sarkozy, a França desapareceu um pouco dos radares das finanças mundiais, a aparição, em condições fulgurantes desse novo presidente também tem dado o que pensar. Macron é o “queridinho” do mundo inteiro. 

Em algumas semanas ele se tornou a vedete das reuniões internacionais. Inteligente, sedutor, hábil, amável, realista, ele coloca (pelo menos no momento) todo o mundo no seu bolso. E tem reflexos rápidos: neste momento está se esforçando ao máximo para trazer a Paris não só os próximos Jogos Olímpicos de 2014, mas também uma parte dos banqueiros da City.

É preciso dizer que para esses grandes financistas britânicos Macron é um sonho. Uma guloseima. Um bombom. Ex-diretor do banco Rothschild, com a mesma formação dos grandes “traders” britânicos, mas acrescentando a isso uma verdadeira cultura literária e, segundo dizem, um verdadeiro talento filosófico, ele é a imagem ideal do jovem do seu tempo, à qual todo jovem gostaria de se identificar.

Este é um elemento que terá papel fundamental na transferência de uma parte dos banqueiros da City. E ninguém duvida que o surgimento desse jovem bem educado, culto e eficaz ajudará, só por sua presença (e suas decisões também) a impulsionar o futuro da economia francesa que, no momento ainda está adormecido, com as echarpes e pulôveres nos quais François Hollande o envolveu. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

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