Europa despreparada

O tão sonhado projeto europeu enfrenta uma série de desastres e o bloco não pensou em uma alternativa realista

Paul Krugman*, The New York Times

28 de novembro de 2015 | 08h00

O Dia de Ação de Graças que conhecemos nos EUA não data da época da colônia, mas da época da Guerra Civil, quando Abraham Lincoln o declarou feriado federal. Em outras palavras, trata-se de uma comemoração da unidade nacional. E a unidade nacional é realmente algo pelo qual os americanos devemos ser muito gratos. Para entender o motivo, basta ver o desastre em câmera lenta que está se abatendo sobre o projeto europeu em múltiplas frentes.

Para quem não está familiarizado com o termo, o “projeto europeu” tem um significado específico. Ele se refere à iniciativa de longo prazo que tinha como objetivo promover uma Europa pacífica e próspera mediante a integração econômica e social, iniciativa que começou há mais de 60 anos com a formação da Comunidade do Carvão e do Aço.

O esforço prosseguiu com a criação do Mercado Comum em 1959; a expansão desse mercado a fim de incluir nações recentemente democratizadas no sul da Europa; o Ato Único Europeu, que garantia a livre movimentação das pessoas e dos bens; uma maior ampliação da União Europeia para as antigas nações comunistas; o Tratado de Schengen, que aboliu muitos controles de fronteira no continente; e, evidentemente, a criação de uma moeda europeia comum.

Uma interpretação de todas essas medidas é que elas representaram tentativas de dar à Europa muitos dos atributos de uma nação única sem uma união política formal - pelo menos ainda não. A esperança mais ou menos explícita de muitos, na elite europeia, era que a integração técnica e econômica promoveria gradativamente a unificação psicológica, preparando o caminho para os Estados Unidos da Europa.

Por muito tempo, o projeto funcionou muito bem, enquanto a Europa ia se tornando persistentemente mais próspera, pacífica e livre. Mas de que maneira o processo enfrentaria os eventuais revezes? Afinal, o projeto europeu estava criando uma crescente interdependência sem criar as instituições ou, apesar das esperanças da elite, o sentido de legitimidade política necessário para administrar essa interdependência se algo desse errado.

Vejamos os desastres. À primeira vista, a crise financeira, a crise dos refugiados e os ataques terroristas talvez pareçam não ter algo em comum. Mas em cada caso a capacidade da Europa de se proteger acabou sendo minada pela união imperfeita.

Quanto à crise financeira, há um amplo consenso entre os economistas (embora, infelizmente, não entre os políticos), segundo o qual os problemas da Europa foram causados principalmente por mudanças de estado de espírito de investidores privados, que imprudentemente despejaram dinheiro na Europa meridional após a criação do euro - e abruptamente inverteram o curso dez anos mais tarde. Mas algo semelhante também ocorreu nos EUA, onde o dinheiro inicialmente destinou-se aos empréstimos para o pagamento de hipotecas nos “Estados do deserto” - Flórida, Arizona, Nevada, Califórnia - e depois desapareceu. Mas, nos EUA, o sofrimento provocado por essa inversão de rota ficou limitado a instituições federais, que variam da previdência social ao seguro dos depósitos. Infelizmente, na Europa, o custo das operações de salvamento dos bancos recaiu sobre os governos nacionais, de modo que os problemas do setor privado acabaram extrapolando na crise fiscal.

A questão dos refugiados: a política da imigração em geral, e dos refugiados em particular, é perversa em todos os países - basta ouvir Donald Trump ou Ted Cruz. Mas a Europa também tenta manter abertas as fronteiras internas enquanto deixa o controle das fronteiras externas aos governos nacionais, como a da Grécia empobrecida e arrasada pela austeridade. Portanto, não surpreende que os controles das fronteiras estejam voltando.

E quanto ao terrorismo: nenhuma sociedade livre jamais poderá estar perfeitamente livre de ataques. Mas é preciso pensar quão mais difícil isso se torna quando o combate ao terrorismo é deixado aos governos nacionais, cuja capacidade de policiar as fronteiras varia consideravelmente. Basta pensar em como os nova-iorquinos se sentiriam se a paralisia política em New Jersey se tornasse um obstáculo para toda medida eficiente contra o terrorismo; por outro lado, conhecemos bem os problemas criados pela Bélgica para a França.

Teoricamente, a Europa responderia a esses revezes fortalecendo sua união e criando novas instituições para administrar a interdependência. Mas a vontade política para esse tipo de progresso aparentemente não existe. Por exemplo, na terça-feira, a Comissão Europeia propôs a redução gradativa do sistema de garantia de depósitos em toda a Europa, que constitui o mínimo necessário para manter a estabilidade dos bancos numa união monetária. Mas o plano enfrenta a furiosa oposição na Alemanha, que a considera um presente a seus vizinhos perdulários.

A alternativa é dar um passo atrás, o que já está acontecendo com os controles nas fronteiras. Os líderes europeus estão preocupados, e com razão, com a possibilidade de cada uma dessas medidas prejudicar todo o projeto europeu. Mas qual seria uma alternativa realista?

A verdade é que não sei a resposta. Só sou grato pelo fato de os EUA terem o tipo de unidade com o qual a Europa só pode sonhar - ao menos por enquanto. Acho que veremos o que restará depois que o presidente Trump tiver posto em prática suas propostas./TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

*PAUL KRUGMAN É COLUNISTA

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