Europa deveria seguir a posição de FHC, diz Alain Touraine

Antigo mestre e colega do presidente Fernando Henrique na universidade francesa, o sociólogo Alain Touraine está convencido de que a Europa ainda relutará um pouco, mas acabará evoluindo para a posição assumida pelo dirigente brasileiro em favor de uma reformulação da ordem internacional vigente, capaz de superar os critérios unilateralistas e favorecer a participação efetiva de todas nas nações nos processos decisórios. Sintetizando para a Agência Estado hoje em Paris suas impressões sobre as reações da classe politica francesa aos pronunciamentos e gestões feitos nesse sentido por Fernando Henrique, Touraine mostrou-se, contudo, consternado: "Infelizmente, a Europa, que sofre desde o fim da União Sovietica, há 10 anos, os efeitos negativos da política unipolar dos Estados Unidos, não chegou ainda ao mesmo nível de determinação e coragem do Brasil na matéria." O sociólogo afirmou: "Os dirigentes europeus sabem que o reequilíbrio do jogo geopolítico para torná-lo mais consensual e democrático é fundamental para a paz mundial, mas não conseguem tomar iniciativas como as de Cardoso. Por enquanto, eles estão com medo de tudo. Só espero é que a referência brasileira inspire a Europa para que ela retome logo sua capacidade de deliberar e agir". Não era menor o mal-estar de Touraine ante a constatação feita por ele próprio "da falta de entusiasmo" dos dirigentes franceses pela proposta de Fernando Henrique visando a intensificar a cooperação entre o Mercosul e a União Européia. "Depois que Cardoso defendeu o princípio dessa cooperação na imprensa e na tribuna da Assembléia Nacional, ouvi dois ministros importantes, entre outras autoridades francesas, falarem das dificuldades que tal abertura colocaria para os agricultores europeus, franceses e italianos sobretudo." Touraine lamenta que, por causa do "protecionismo arcaico" de uma agricultura européia de camponeses-funcionários, altamente subvencionada, o mundo esteja perdendo "a oportunidade de estabelecer um intercâmbio mais consequente da União Européia com o Mercosul, suscetível, precisamente, de reforçar a posição de ambos nas negociações com os Estados Unidos por uma ordem internacional mais aberta, multipolar". Depois de evocar e deplorar a atitude de Lula, defendendo "a política retrógrada de subvenções agrícolas praticada na Europa", o sociólogo francês fez ver que, mais especificamente, o acordo entre europeus e latino-americanos tornaria os últimos menos vulneráveis à hegemonia dos Estados Unidos no quadro da Alca (Área de Livre Comércio das Americas) a ser criada até 2005. E consolidaria o espaço dos europeus na economia sul-americana antes do "desembarque maciço dos americanos com a Alca".

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.