Europa e América, alinhadas para o futuro

Reunião da Otan em Lisboa é uma oportunidade para fortalecer a cooperação e fazer com que a aliança continue relevante neste século

BARACK OBAMA, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 00h00

Com as reuniões de cúpula entre a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e Estados Unidos-União Europeia, em Lisboa, tenho orgulho de ter visitado a Europa uma meia dúzia de vezes como presidente. Isto reflete uma verdade duradoura da política externa americana - nossas relações com aliados e parceiros europeus constitui a pedra angular de nosso compromisso com o mundo, e o catalisador da cooperação global.

Os EUA não mantêm com nenhuma outra região um alinhamento tão estreito em matéria de valores, interesses, recursos e objetivos. Com as mais amplas relações econômicas do mundo, o comércio transatlântico sustenta milhões de empregos nos EUA e na Europa e constitui o alicerce de nossos esforços para sustentar a recuperação econômica global.

Enquanto aliança de nações democráticas, a Otan garante nossa defesa coletiva e contribui para fortalecer as jovens democracias. Europa e EUA colaboram para impedir a proliferação das armas nucleares, promover a paz no Oriente Médio e fazer frente às mudanças climáticas. E como vimos no recente alerta de segurança na Europa e no frustrado complô para detonar explosivos em aviões em voos transatlânticos, cooperamos estreitamente para impedir ataques terroristas e proteger nossos cidadãos.

Em outras palavras, estabelecemos a maior parceria recíproca. Nem a Europa nem os EUA poderiam fazer frente aos desafios do nosso tempo sem se apoiar mutuamente. Estas reuniões de cúpula são, portanto, uma oportunidade para aprofundarmos mais esta cooperação e fazer com que a Otan - a aliança mais bem-sucedida da história da humanidade - continue tão relevante neste século como foi no passado. É por isso que nossa agenda em Lisboa é tão abrangente.

Em primeiro lugar, na questão do Afeganistão, podemos harmonizar nossos esforços na transição para uma liderança afegã, sem deixarmos de sustentar um compromisso duradouro com o povo afegão.

Nossa coalizão liderada pela Otan no Afeganistão é formada por 48 nações - os 28 aliados da organização e 40 mil soldados dos países aliados e parceiros - a cujo serviço e sacrifício prestamos nosso reconhecimento. Estes esforços conjuntos são essenciais para impedir que os terroristas tenham um refúgio seguro e para melhorar as condições de vida do povo afegão.

Com a chegada de novas forças da coalizão nestes dois últimos anos, finalmente podemos dispor da estratégia e dos recursos para quebrar o ímpeto dos taleban, acabar com os redutos rebeldes, treinar mais forças de segurança afegãs e dar assistência ao povo afegão.

Em Lisboa, unificaremos nossas estratégias de forma a dar início à transição para transferir a responsabilidade aos afegãos no início de 2011 e adotar o objetivo do presidente Hamid Karzai que é deixar às forças afegãs a segurança em todo o país até o final de 2014.

E, mesmo que a transição e a redução das tropas só comece em julho, a Otan e os EUA poderão criar uma parceria duradoura com o Afeganistão ressalvando que, quando os afegãos assumirem o controle, não estarão sozinhos.

A Otan também se transformará em Lisboa com a adoção do novo Conceito Estratégico que reconhece os recursos e os parceiros indispensáveis para fazer frente às novas ameaças do século 21. Isto deverá começar com a reafirmação do ponto vital desta aliança - nosso compromisso com o Artigo 5.º, segundo o qual um ataque contra um de nós será um ataque contra todos.

Enquanto modernizamos nossas forças convencionais, precisamos reformar as estruturas de comando da aliança a fim de torná-las mais efetivas e eficientes, investir nas tecnologias que permitem que as forças aliadas se instalem e operem juntas de maneira eficiente, e criar novas defesas contra ameaças como os ataques cibernéticos.

Outro recurso necessário à aliança é o território de defesa contra mísseis da Otan, imprescindível para enfrentar a ameaça real e crescente de mísseis balísticos. A estratégia para a defesa de mísseis europeia que anunciei no ano passado proporcionará uma defesa forte e efetiva do território e dos cidadãos da Europa e das forças americanas na região. Além disso, ela constitui o alicerce de uma maior colaboração - prevendo um papel para todos os aliados, proteção e a oportunidade de cooperar com a Rússia, que também é ameaçada por mísseis.

Além disso, esta colaboração poderá criar as condições para a redução dos arsenais nucleares e para avançarmos para a visão que esbocei no ano passado - a de um mundo sem armas nucleares. Mas enquanto estas armas existirem, a Otan continuará sendo uma aliança nuclear, e já destaquei que os EUA manterão um arsenal nuclear seguro e efetivo a fim de dissuadir qualquer adversário e garantir a defesa de nossos aliados.

Finalmente, em Lisboa continuaremos fortalecendo outras parcerias além da Otan que permitem fazer de nossa aliança o sustentáculo da segurança global. Deveremos manter a porta aberta para as democracias europeias que atendem às normas da Otan, e aprofundar a cooperação com organizações que complementam os pontos fortes da aliança, como a União Europeia, a ONU e a Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa. E com a participação do presidente Dmitri Medvedev na cúpula do Conselho Otan-Rússia, poderemos retomar a cooperação prática entre Otan e Rússia que beneficia a ambas.

Pois, assim como os EUA e a Rússia restabeleceram seu relacionamento, o mesmo poderão fazer a Otan e a Rússia. Em Lisboa, poderemos enfatizar que a Otan considera a Rússia uma parceira e não adversária. Poderemos aprofundar nossa cooperação a respeito do Afeganistão, do combate ao narcotráfico e dos desafios à segurança no século 21 - do avanço das armas nucleares ao avanço do extremismo violento. E com a cooperação na defesa de mísseis, poderemos transformar o que no passado constituiu um motivo de tensão em um motivo de cooperação contra uma ameaça comum.

Durante mais de 60 anos, europeus e americanos têm ficado lado a lado porque colaborando podemos defender nossos interesses e proteger as liberdades que acalentamos enquanto sociedades democráticas. O mundo mudou e também nossa aliança e, consequentemente, nos tornamos mais fortes, mais seguros e mais prósperos. Esta é nossa missão em Lisboa - revitalizar nossa aliança mais uma vez e garantir nossa segurança e prosperidade nas próximas décadas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É PRESIDENTE DOS EUA

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