Europa e o Cairo

Toda a diplomacia europeia se reuniria ontem em Bruxelas. Na agenda, como salvar o Egito do caos e da guerra civil. O que devemos esperar desse conclave? Fato raro, há entre os 28 países-membros um forte consenso: é preciso fazer alguma coisa. Bom, esse é o ponto de partida. No entanto, e a chegada? O que poderemos esperar?

Gilles Lapouge *, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2013 | 02h04

Um segundo consenso, igualmente definido: não poderemos fazer grande coisa. A prudência dos 28 diplomatas europeus é compreensível. Pôr a mão num vespeiro talvez seja um ato heroico, mas não ajuda a fazer mel. Se por acaso um dos 28 ministros quisesse pressionar de fato os militares do general Abdel Fattah al-Sisi, mudaria de ideia depois da declaração glacial que, na segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, Saud al-Faisal, fez no Palácio do Eliseu, em Paris.

"Os que anunciaram o fim da ajuda financeira ao Egito devem se conscientizar de que a nação árabe e islâmica da Arábia Saudita, com os recursos de que dispõe, não hesitará em prestar ajuda ao Egito". Em outras palavras: "Cuidado, vocês correm o risco de empurrar o Egito para os braços da Arábia Saudita".

É preciso lembrar que a Europa fornece ao Egito uma ajuda militar de 140 milhões de euros, enquanto que os EUA enviam 970 milhões de euros. A Arábia Saudita já prometeu ao Egito US$ 5 bilhões.

Enquanto os diplomatas refletem, a tragédia continua. Pensamos na desgraça no Cairo ou em Alexandria com verdadeiros rios de sangue. E também no Sinai, a estreita fatia de terra situada a leste do Egito, sobre o Mar Vermelho, que pertence ao Egito e tem fronteiras comuns com Israel e com a Faixa de Gaza, ou seja, com a terra onde reinam os palestinos mais próximos dos islamistas radicais.

O Sinai, terra desértica e miserável, povoada por beduínos nômades, é sempre muito sensível às pregações religiosas islamistas. É o que ocorre hoje. Na segunda-feira, um comboio da polícia egípcia que patrulhava a região do Sinai caiu numa emboscada: 25 policiais foram mortos.

ASSASSINATOS

Depois da queda do presidente Mohamed Morsi, 75 policiais egípcios e dois cristãos coptas foram assassinados no Sinai. E, bem entendido, desde então, os disparos de foguetes se multiplicam dali em direção a Israel.

Na terra desolada do Sinai, os jihadistas são numerosos: estima-se que sejam cerca de 3 mil homens. Ou seja, o Sinai é refúgio para os jihadistas procurados. Neste momento, ali encontram-se fugitivos da cadeia, como Ramzi Mawafi, ou o médico de Osama bin Laden e vários líderes militares que foram agraciados no Egito pelo presidente Morsi.

A presença desse ninho de jihadistas perturba, pelo mesmo motivo, dois governos, o de Israel e o do Cairo. Para Israel, o Sinai é um verdadeiro pesadelo porque os islamistas podem ameaçar o território israelense e, ao mesmo tempo, fazer frente ao combate antissionista dos palestinos de Gaza. Para o Cairo, é perigoso deixar essa região pegar fogo ou cair na órbita islamista.

Não surpreende que Israel tenha reagido. Instalou uma bateria antimísseis, o Domo de Ferro, no balneário de Eilat. Quanto ao Egito, aumentou sua presença militar e policial e passou a agir em estreita colaboração com Israel.

RISCO DE VIDA

Entretanto, essas precauções israelenses são claramente insuficientes. Os policiais egípcios enviados para a região sabem que correm risco. Em El-Arich, que é a capital do Sinai, cidade de 115 mil habitantes, na semana passada, 15 mil pessoas desfilaram durante a noite de segunda-feira com armas pesadas.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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