Europa e Turquia firmam acordo sobre gasoduto

Moscou tenta minar projeto,que reduzirá dependência do gás russo

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

14 de julho de 2009 | 00h00

Governos europeus e a Turquia assinaram ontem um acordo em Ancara para a criação de um gasoduto que promete mudar as relações de poder na região. Mas, nos bastidores, Moscou montou uma grande ofensiva para evitar o sucesso do projeto energético, que reduziria sua influência na Europa. Depois de sete anos de negociações, o projeto do gasoduto, conhecido como Nabucco, começa a ganhar forma. Trata-se de uma iniciativa estratégica que envolve interesses não só europeus e turcos, mas americanos, iraquianos e até iranianos. O objetivo principal da "nova rota da seda" é reduzir a dependência da energia da Europa em relação ao gás russo. Para os turcos, o projeto é visto como a principal cartada para uma aproximação estratégica com a União Europeia, que hesita em aceitar Ancara como membro efetivo do bloco. O gasoduto terá 3,3 mil quilômetros e espera-se que leve 31 bilhões de metros cúbicos de gás do Mar Cáspio até a Europa, atravessando a Turquia e contornando a Rússia. Hoje, 25% do gás que abastece as casas europeias depende da Rússia. Em alguns países, esse índice chega a 70%. A meta é que o primeiro fornecimento de gás ocorra em 2014, depois de investimentos estimados de US$ 10,9 bilhões. Mas antes do início das obras, os governos terão de resolver dois problemas: quem pagará por ela com essa crise e de onde virá o gás. Na assinatura do acordo, o primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, deveria receber os governos da Bulgária, Romênia, Hungria e Áustria. Alemanha, Azerbaijão, Turcomenistão, Síria, Egito, a Comissão Europeia e os EUA também estariam como observadores. "Esse é um projeto essencial para nossa segurança energética", disse José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia. Mas a batalha diplomática é acirrada. O Kremlin vem pressionando seus parceiros na Ásia Central a não fornecer gás ao projeto. Em maio, o Casaquistão e o Usbequistão recusaram-se a participar da iniciativa cedendo à pressão de Moscou. "Há um jogo político e diplomático ocorrendo no momento", afirmou ao Estado Necdet Pamir, especialista em energia na Turquia. O único fornecedor confirmado era o Azerbaijão, que não tem reservas suficientes para justificar o investimento. Mas os russos se apressaram em minar até a participação do Azerbaijão, fechando um contrato para importar gás do país a partir de 2010 e removendo barreiras aos produtos azerbaijanos no mercado russo. Uma das esperanças agora é o Turcomenistão, que anunciou na sexta-feira estar disposto a vender gás para a Europa. Outra possibilidade em estudo é trazer gás do Iraque e do Egito. O Irã seria uma opção, apoiada pela Turquia, mas o governo dos EUA "não aconselha" o envolvimento iraniano. "Não achamos que o Irã deva participar do projeto nesse momento", disse Richard Morningstar, representante para temas de energia na região. O presidente Barack Obama indicou aos turcos que apoiará o gasoduto Nabucco. Os americanos sabem que o efeito mais imediato do projeto é enfraquecer a posição russa. Segundo Morningstar, os russos poderão vender gás para o projeto, mas serão os europeus que darão a palavra final sobre isso. A falta de fornecedores adiou em vários momentos a assinatura do acordo. Outro obstáculo foi a tentativa turca de cobrar um pedágio pesado para autorizar a passagem do gás.

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