Herwig Prammer /AP
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Europa em alerta

No instável quebra-cabeça que se tornou a Europa nos dias atuais, duas novas peças podem se movimentar no domingo e escapar da União Europeia: Áustria e Itália

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

02 Dezembro 2016 | 05h00

No instável quebra-cabeça que se tornou a Europa nos dias atuais, duas novas peças podem se movimentar no domingo e escapar da União Europeia: Áustria e Itália. O teste mais arriscado será na Itália. O premiê italiano, o arrogante Matteo Renzi, convocou seus cidadãos para votar se aprovam uma reforma que reduzirá fortemente os poderes do Senado.

Os italianos não estão nem um pouco preocupados com o Senado, mas não apreciam muito Renzi. Sua vaidade os irrita. Portanto, poderão rejeitar uma reforma do Senado unicamente para derrubar o premiê. Neste caso, Renzi cairá e deixará as chaves do país para o comediante agitador Beppe Grillo e o populismo do Movimento Cinco Estrelas. Neste caso, o euro e a UE correm risco.

O segundo perigo está na Áustria, onde se realizará nova eleição presidencial porque os resultados da primeira votação, em 12 de maio, foram contestados. Portanto, haverá uma segunda votação no domingo. Arriscada.

Dois candidatos: o ecologista independente Alexander Van der Bellen, que deve receber o apoio dos social-democratas. O outro é Norbert Hofer, do FPÔ, um partido inquietante. Foi fundado após a guerra, em 1955, e não esconde sua intimidade com a ideologia nazista, o que lhe permitiu crescer velozmente o ponto de seu líder Jörg Haider tornar-se um político muito popular.

Mas em 2005 o partido entendeu que sua devoção a Hitler o limitava um pouco. Então. o partido mudou de orientação. Mas era necessário encontrar um outro alvo de ataque, que era evidente: os estrangeiros, os imigrantes, de preferência aqueles de pele negra ou parda. Muitos membros do partido são recrutados em uma “corporação” chamada Marko-Germania Pinkafeld, reservada a “alemães recrutados” segundo critérios de “filiação biológica”. Está muito claro: quem desejar aderir a essa corporação não deve ser nem escravo, nem africano, nem francês.

Na votação anterior, o candidato do FPÔ, que já era Norbert Hofer, perdeu por uma pequena margem do ecologista Alexander Van der Bellen. Portanto, pode muito bem vencer o escrutínio no domingo. Neste caso, perigo também para a União Europeia já que o FPÔ não nutre nenhuma simpatia por essa associação de cosmopolitas, aberta a todas as pessoas que vêm de fora, especialmente as que chegam da África, da Ásia, todas essas hordas que “a louca Angela Merkel” distribuiu pelos países alemães, abrindo as portas a mais de 1 milhão de refugiados.

É preciso reconhecer que a Europa há algum tempo avança rapidamente no caminho da sua decomposição. Em julho o Reino Unido deixou a UE, após o Brexit. Há meses, em alguns casos anos, o Leste Europeu também tenta se libertar de suas amarras. A Hungria de Viktor Orbán abriu o caminho, seguido pela Polônia de Jaroslaw Kaczynski, a Eslováquia de Robert Fico. A Grécia respira artificialmente.

Em alguns países do norte, e nos países flamengos, as formações fascistas (ou populistas como se diz mais polidamente) estão “em plena expansão”. Espanha e Portugal caminham a passos lentos. Se, a esse Exército que bate em retirada vierem se juntar Itália e Áustria, os encanadores e pedreiros de Bruxelas que, há anos, não fazem mais nada senão vedar as rachaduras e reforçar as estruturas carcomidas, terão muito trabalho pela frente.

A todos esses canteiros de demolição devemos acrescentar o francês? O poder socialista de François Hollande, firmemente pró-europeu, vai desaparecer dentro de cinco meses. Será substituído ou por Marie Le Pen, modelo e quase chefe do bando de populistas europeus, ou por François Fillon, que acabou de vencer as “primárias da direita”, com uma votação mirabolante? Fillon é da direita dura, mas não populista. É uma mistura de Margaret Thatcher, Ronald Reagan, Tony Blair, Gerard Schroeder e Valéry Giscard D’ Estaing. 

Como a maioria da classe política tradicional, é “europeu”, mas não venera a Europa. Votou em 2005 contra o Tratado de Maastricht. E como é um homem determinado podemos esperar que ele se manterá leal à Europa, e fiel a Bruxelas, com moderação. Mas daqui até la, se Itália ou Áustria se rebelarem, então... / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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