Lisi Niesner/REUTERS
Lisi Niesner/REUTERS

Europa endurece restrições para não vacinados enquanto a quarta onda da covid avança

Medidas são triste sinal de que vírus ainda não é passado na região

Jason Horowitz, New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2021 | 05h00

ROMA — Conforme as temperaturas diminuem e as infecções por coronavírus aumentam em toda a Europa, países introduzem cada vez mais restrições direcionadas a pessoas não vacinadas, responsáveis por uma nova onda de contágios que coloca em risco retomadas econômicas, a saúde pública e um possível retorno às liberdades pré-pandemia.

Na segunda-feira, a Áustria estabeleceu um novo padrão para medidas desse tipo no Ocidente. Encarando um aumento de 134% dos casos de covid-19 nas duas últimas semanas, o governo austríaco passou a restringir o movimento em viagens, trabalho, escolas, comércios e assistência médica de pessoas não vacinadas com mais de 12 anos.

“Nossa tarefa enquanto governo federal é proteger o povo da Áustria”, afirmou o chanceler Alexander Schallenberg em entrevista coletiva, no domingo. “Estamos cumprindo essa obrigação.”

O passo da Áustria condiz com o padrão, entre os governos europeus, de aprovar regras para dificultar a vida dos não vacinados, na esperança de que eles decidam se imunizar. Conjuntamente, essas medidas são um triste e evidente sinal de que um vírus que pareceu brevemente parte do passado da Europa ainda está em seu presente -- e talvez no seu futuro.

A Organização Mundial da Saúde alertou recentemente que a Europa se tornou outra vez o epicentro da pandemia e que 500 mil pessoas poderão morrer de covid-19 no continente nos próximos meses. A Europa registrou um aumento de 10% nas mortes por covid-19 e de 7% nas novas infecções por coronavírus na primeira semana de novembro, em comparação com a semana anterior.

Hospitalizações e mortes ocorrem principalmente no Leste Europeu, mas a nova onda ameaça recuperações econômicas e férias de fim de ano em todo o continente. Um retorno à normalidade decorrente do sucesso das campanhas de vacinação está cada vez mais ameaçado pelas pessoas que não se vacinam, oferecendo espaço para o vírus se proliferar.

É por este motivo que governos de toda a Europa têm adotado medidas extra de restrições a pessoas não vacinadas. As novas regras na Áustria ocasionam “uma redução massiva nos contatos entre vacinados e não vacinados”, afirmou à BBC Eva Schernhammer, professora da Universidade de Medicina de Viena.

De maneira similar, na Alemanha, que foi acometida de um ressurgimento dos contágios, o governo recém-eleito afirmou que imporá medidas mais restritivas sobre pessoas não vacinadas, incluindo obrigá-las a apresentar testes negativos para coronavírus para poder viajar de ônibus e trem. Na França, doses de reforço se tornarão pré-requisito para pessoas com mais de 65 anos obterem passaportes sanitários. E na Itália, vacinação, recuperação recente de covid-19 ou testes frequentes realizados serão obrigatórios para os trabalhadores.

Apesar disso, alguns líderes europeus consideraram excessivas as novas medidas da Áustria. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, cujo país tem sofrido uma erupção de novos casos nas últimas semanas, manteve sua resistência em relação à obrigatoriedade do uso de máscaras e de passaportes sanitários.

“Nossos amigos do continente foram forçados a responder com vários graus de novas restrições, de lockdowns completos a lockdowns para pessoas não vacinadas, a restrições ao horário de abertura das lojas e a reuniões sociais”, afirmou na segunda-feira Johnson, que dobrou sua aposta na vacinação, afirmando que doses de reforço serão oferecidas a todos os adultos com mais de 40 anos e que segundas doses serão disponibilizadas para os adolescentes de 16 e 17 anos, que até agora só foram inoculados com a primeira. Johnson afirmou estar preocupado com “nuvens de tempestade que estão se formando sobre o continente”.

Esse é o caso especialmente no Leste Europeu, onde cicatrizes das feridas deixadas por décadas de desinformação sob regimes comunistas parecem ter se aberto e espalhado ceticismo em relação à ciência médica. A Romênia, que tem o segundo menor índice de vacinação da Europa, registrou recentemente a taxa mais alta do mundo de mortes por covid-19 por habitante. Na Bulgária, os hospitais estão lotados.

No mês passado, a Letônia, um pequeno país báltico onde a resistência à vacinação é alta, especialmente entre a população de etnia russa, respondeu ao surto com um lockdown completo. Rússia e Ucrânia, que possuem índices de vacinação inferiores a 50%, também adotaram restrições abrangentes. As infecções têm aumentado ao longo das fronteiras da Europa Ocidental.

Na Alemanha, que sofreu um vertiginoso aumento nos casos em parte por causa da lentidão na aplicação das doses de reforço, autoridades esperavam que obrigar as pessoas a testes frequentes as motivaria a se vacinar. Mas o país tentará novamente manter registros mais precisos do vírus oferecendo testes gratuitos para todos os adultos do país. O governo sugeriu que esses testes poderiam ser exigidos para entrada em eventos e certos locais, mesmo de pessoas vacinadas.

As infecções também aumentaram no norte da Itália, ao longo da fronteira do país com Áustria e Eslovênia. Com um índice de vacinação da população com mais de 12 anos acima de 80%, a Itália aplica algumas das medidas mais restritivas na Europa, por meio de um passaporte sanitário que exige vacinação ou testagens constantes para permitir que as pessoas possam trabalhar.

O governo italiano anunciou nos dias recentes que táxis poderão transportar no máximo duas pessoas, a não ser que os passageiros sejam da mesma família, e permitiu a autoridades sanitárias ou à polícia ferroviária parar trens caso passageiros apresentem sintomas que possam ser associados à covid-19.

“Estou preocupado com uma possível elevação no número de casos antes do Natal”, afirmou o ministro de Relações Exteriores italiano, Luigi Di Maio, em entrevista coletiva, no domingo, acrescentando que o rigor do passaporte sanitário foi pensado para permitir que o comércio permaneça aberto e que o país possa continuar exercendo suas atividades, sem ter de fechar.

“Olhem os outros Estados europeus”, acrescentou Di Maio, “que possuem índices de vacinação mais baixos que os nossos, eles estão aplicando uma série de medidas muito mais restritivas que as nossas”.

A Grécia introduziu este mês regras exigindo que pessoas não vacinadas apresentem testes rápidos ou PCR negativos para ter acesso a serviços públicos, bancos, lojas e salões de beleza. O mesmo vale para entrada em cafés e restaurantes, o que ocasionou uma greve de 24 horas planejada para esta terça-feira, para protestar contra as novas medidas. As autoridades gregas afirmaram considerar mais medidas restritivas a pessoas não vacinadas.

A França anunciou que máscaras passarão a ser exigidas novamente em escolas de ensino fundamental e que reforçará as restrições em face à elevação nos casos, após o número de infecções diárias ter mais que duplicado em relação ao início de outubro, de 4 mil para 8 mil.

Pessoas com mais de 65 anos precisarão tomar a dose de reforço para manter sua elegibilidade nos passaportes sanitários para frequentar restaurantes, museus e viagens longas de trem.

Países bem-sucedidos em vacinar grandes fatias de suas populações, em vez disso, têm suspendido restrições. Portugal, que vacinou cerca de 90% da população, reduziu em 1.º de outubro a exigência dos passaportes sanitários e suspendeu quase todas as restrições relativas ao coronavírus. A Espanha, com um índice de vacinação de 80%, não exige passaportes sanitários.

Mas a tendência parece muito mais intensificar restrições, à medida que o inverno se aproxima e o vírus se espalha.

Mesmo a região do País Basco, no norte da Espanha, deverá anunciar nesta terça-feira restrições a aglomerações em cidades com índices elevados de infecção. E o chanceler austríaco deixou claro que a única maneira de a Europa se livrar da pandemia e dos lockdowns é a vacinação.

“Meu objetivo muito claro é que as pessoas que não se vacinaram se vacinem; e não trancar em casa as pessoas que se vacinaram”, disse Schallenberg à rádio austríaca Ö1, de acordo com a Associated Press. “A longo prazo, a única saída deste círculo vicioso — e trata-se de um círculo vicioso, entre ondas de infeção e lockdowns, no qual não podemos permanecer eternamente — é a vacinação." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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