REUTERS/Ed Sykes
REUTERS/Ed Sykes

Europa enfrenta hoje teste de resistência

Se britânicos votarem a favor da saída do Reino Unido da União Europeia, há o risco de uma reação em cadeia de outros membros do bloco

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

23 Junho 2016 | 05h00

A União Europeia, projeto de integração fundado há 58 anos, vive uma das jornadas mais importantes de sua história. Hoje, 46,5 milhões de britânicos decidirão se o Reino Unido será o primeiro país a abandonar o bloco, abrindo um precedente cujas consequências são imprevisíveis, tanto em Bruxelas quanto em Londres. 

Para especialistas em relações internacionais e ciências políticas, na hipótese de vitória do Brexit – como é chamada a saída do bloco – uma reação em cadeia pode levar outros países a convocar referendos similares, colocando em risco a existência da União Europeia.

Depois de uma campanha controvertida, marcada pelo medo estimulado por ambos os lados, um número recorde de britânicos inscritos no sistema eleitoral – 150 mil a mais do que nas eleições de 2015 – poderá ir às urnas hoje em 382 zonas de voto no Reino Unido e em Gibraltar, enclave britânico na Península Ibérica. 

De acordo com as duas últimas pesquisas divulgadas, o resultado da votação é imprevisível. Para o Instituto Opinium, 45% dos 3 mil entrevistados votarão pela saída da UE, enquanto 44%, pela permanência. Outros 9% dos eleitores se disseram indecisos e 2% não quiseram se pronunciar. 

Já o instituto TNS entrevistou 2,3 mil pessoas e concluiu que 43% são a favor da saída e 41%, pela permanência, enquanto 16% ainda estariam na dúvida. O prognóstico surpreende, pois analistas esperavam um efeito favorável à campanha pela permanência após o assassinato da deputada trabalhista e ativista Jo Cox, morta na semana passada por um fanático neonazista partidário do rompimento entre Londres e Bruxelas.

Os primeiros resultados parciais devem começar a ser divulgados por volta das 20h30, no horário de Brasília, e o resultado oficial pode sair por volta da 1h de sexta-feira.

Campanha. Com base na estratégia de provocar medo no eleitorado, as campanhas de ambos os lados viveram de excessos e, não raro, de mentiras. Por parte dos políticos em favor do Brexit, o fantasma foi o da avalanche migratória. Por parte dos líderes da campanha pela permanência, o receio da derrocada econômica e do isolamento do país em meio à globalização.

“Dois temas foram dominantes. O primeiro foi a economia. O segundo, imigração”, explicou o professor de ciências políticas Jonathan Tonge, da Universidade de Liverpool. “Os partidários do Brexit não acreditam que a imigração possa ser contida em razão do número de imigrantes oriundos da própria União Europeia. Entre os favoráveis à permanência, o raciocínio é mais voltado para o cálculo das perdas econômicas.”

Diante da perspectiva de um score apertado, as últimas horas de campanha foram de mobilização. Em debate realizado no estádio de Wembley e transmitido pela BBC, o ex-prefeito de Londres, o conservador Boris Johnson, enfrentou o atual prefeito, o trabalhista Sadiq Khan, em busca do voto dos últimos indecisos.

“Não podemos reduzir nossos custos energéticos para proteger os empregos porque Bruxelas diz não”, disse Johnson, reclamando do suposto excesso de regulação imposto pela UE aos países-membros. “É mentira atrás de mentira”, acusou Khan, que respondeu: “Boris, você deveria saber que perto de meio milhão de empregos em Londres são diretamente dependentes da União Europeia”.

No continente, a mobilização das autoridades não é menor. Em Berlim, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, voltou a manifestar seu “desejo” de que o Reino Unido siga no bloco. “Amanhã será decidido o futuro da Europa, será decidido como a Europa vai se parecer no futuro”, disse, reiterando que deseja uma UE forte. 

Na mesma linha, o presidente da França, François Hollande, reconheceu que o Brexit é um risco: “O futuro da União Europeia está em jogo no referendo britânico”.

Na iniciativa privada, a mobilização também foi grande. Ontem, 1,3 mil diretores de empresas publicaram carta aberta convocando os britânicos a votarem pela manutenção da parceria entre Londres e Bruxelas.

Na hipótese de o Reino Unido optar por romper a relação iniciada em 1º de janeiro de 1973, a União Europeia enfrentará seu segundo teste de fogo em menos de um ano. Em julho de 2015, a crise da zona do euro ameaçou o bloco de implosão em razão do risco de falência da Grécia, que ameaçava a moeda única. O teste foi superado, mas hoje a UE volta à berlinda. 

O risco é de desintegração ao menos parcial no bloco de 28 países, que hoje tem 508 milhões de habitantes. Segundo Pauline Schnapper, pesquisadora de civilização britânica da Sorbonne, em Paris, há duas perspectivas: a organização de novos referendos ou a abertura de várias frentes de negociação para a revisão dos tratados europeus.


Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.