Europa fracassa em tentativa de conter violência no Egito

Manifestantes favoráveis ao presidente deposto farão hoje 1ª marcha após confrontos que mataram 80 no fim de semana

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2013 | 02h01

Três dias depois do maior massacre desde o golpe de Estado que derrubou o presidente eleito Mohamed Morsi, a União Europeia deu início ontem a novas discussões para tentar intermediar um acordo entre os militares e a Irmandade Muçulmana no Egito. A iniciativa foi tomada pela chanceler europeia Catherine Ashton, que chegou ao Cairo para dialogar com as forças políticas do país.

Ontem, a primeira tentativa de acerto fracassou. À noite, Ashton embarcou em um helicóptero para se encontrar com Morsi, segundo uma fonte do governo egípcio, que pediu para não ser identificada. Até o início da madrugada, no entanto, ela não havia retornado.

A ofensiva diplomática foi motivada pelo último massacre em protestos da Irmandade Muçulmana. No sábado, pelo menos 80 ativistas morreram durante confronto com a polícia e o Exército, que voltaram a utilizar munição real para dispersar manifestantes. A repressão foi condenada na Europa e nos EUA, embora o governo de Barack Obama tenha, mais uma vez, anunciado que não interromperá o auxílio financeiro ao Egito. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, condenou o massacre e chamou as partes a sentar à mesa de negociações. "Cada morte torna mais difícil a saída da crise", afirmou. Um nova onda de protestos de islamistas está marcada para hoje.

Diante da repercussão internacional, Ashton chegou no domingo para sua segunda missão no Egito nas últimas duas semanas. O objetivo da visita, segundo Bruxelas, é negociar "um processo de transição que englobe todos e leve em conta o conjunto dos grupos políticos, incluindo a Irmandade Muçulmana".

Ashton se encontrou com o vice-presidente do governo interino, Mohamed ElBaradei, prêmio Nobel da Paz que, embora faça parte do gabinete de transição, lamentou o massacre, convocando as partes a negociar o fim do derramamento de sangue no Egito.

A seguir, a chanceler europeia se reuniu com membros da direção do Partido Liberdade e Justiça (PLJ), o braço da Irmandade Muçulmana, o maior da base de sustentação do governo deposto de Morsi. Sem entendimento, Ashton não falou aos jornalistas, mas deve dar uma declaração hoje, no Cairo.

Em resposta à intermediação, o porta-voz da Irmandade, Gehad al-Haddad, voltou a descartar qualquer tipo de negociação enquanto Morsi não retornar ao poder. "É muito simples: nós não avançamos", disse. "Nós vamos intensificar o movimento de contestação."

Um novo protesto foi convocado pelos islamistas para hoje no distrito de Nasr City, norte do Cairo. Em resposta, o presidente de facto, Adli Mansour, assinou no domingo um decreto que outorga ao seu primeiro-ministro, Hazen Beblaui, por meio de uma lei de exceção, o poder de promover prisões de civis. A medida restabelece poderes que as Forças Armadas tinham durante a ditadura de Hosni Mubarak. / COM REUTERS

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