Europa lembra 20 anos de piquenique 'que derrubou Cortina de Ferro'

Evento na fronteira da Áustria com Hungria abriu caminho para queda do Muro de Berlim.

BBC Brasil, BBC

19 de agosto de 2009 | 13h21

Húngaros, austríacos e alemães lembram, nesta quarta-feira, o 20º aniversário do evento conhecido como "Piquenique Pan-europeu", considerado um marco na abertura da chamada "Cortina de Ferro", que dividia os blocos comunista e capitalista na Europa.

A manifestação, que ocorreu na fronteira entre a Áustria e a Hungria, em 19 de agosto de 1989, abriu o caminho para a queda do Muro de Berlim, que aconteceu três meses depois.

Na ocasião, autoridades da Hungria comunista e da Áustria decidiram abrir simbolicamente a fronteira entre os dois países por algumas horas, para que os cidadãos pudessem realizar um piquenique conjunto.

Centenas de alemães orientais aproveitaram o momento para cruzar a fronteira em direção à Áustria, sem que os guardas húngaros oferecessem qualquer resistência.

A chanceler alemã, Angela Merkel, que cresceu na Alemanha Oriental, faz uma visita oficial à Hungria nesta quarta-feira para lembrar a data.

Merkel afirmou que, com a visita, quer agradecer os húngaros por sua "coragem e perspicácia".

Consequências

Apesar das consequências que o evento teve para a política europeia e para a queda do bloco comunista, Laszlo Nagy, um dos organizadores do piquenique, afirmou que eles queriam apenas chamar a atenção para a divisão entre o leste e o ocidente, e que os resultados excederam suas expectativas.

"O bloco soviético era como um balão de ar sob pressão que precisava de apenas uma furada de agulha (para explodir), e nós estávamos segurando esta agulha", disse.

"Honestamente, se não tivéssemos organizado o piquenique, algo teria acontecido duas semanas, três semanas depois, porque os políticos precisavam de um gatilho (para a abertura)".

Abrindo os portões

O sistema soviético já havia começado a desmoronar à época do piquenique.

A Polônia havia acabado de eleger o primeiro premiê não-comunista em 40 anos e o primeiro-ministro reformista da Hungria, Miklos Nemeth, havia começado a desmantelar, meses antes, a cerca de segurança ao longo da fronteira com a Áustria devido a seus custos elevados.

A fronteira acabaria por ser aberta completamente em 11 de setembro, permitindo que cerca de 60 mil refugiados da Alemanha Oriental a cruzassem em direção ao ocidente.

Nada disso teria sido possível, no entanto, sem a aprovação tácita do líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev.

Em março de 1989, quando Nemeth disse a Gorbachev que planejava destruir a cerca de arame farpado na fronteira com a Áustria, o líder soviético reagiu de maneira calma e disse que a segurança da fronteira não era problema dele.

Nemeth afirma que entendeu a declaração como um sinal verde para a abertura da fronteira, disse ele à BBC.

Um dos alemães orientais que cruzaram a fronteira foi Robert Breitner. Em uma entrevista à BBC, ele afirmou que aqueles eventos em 1989 mudaram sua vida.

"Esta terra (a Hungria) me trouxe a liberdade. De uma maneira simbólica, este país abriu as portas da liberdade, e por isso eu serei grato aos húngaros pelo resto da minha vida", disse. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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