/ AFP PHOTO / Brendan Smialowski
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Europa, ONU e governos regionais nos EUA planejam isolar Trump

Pelo mundo, proliferaram nesta sexta-feira declarações de repúdio à atitude americana, enquanto China e UE fizeram questão de assinar acordos para acelerar a entrada em vigor de medidas ambientais

Jamil Chade, Correspondente / Genebra , O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2017 | 14h55

Num esforço de isolar Donald Trump, a Europa desenha uma estratégia para ignorar o governo americano e manter o Acordo de Paris, negociando e estabelecendo medidas de cooperação diretamente com governos locais nos EUA e com o setor privado. 

Na ONU, o departamento legal passou a avaliar quais mecanismos poderiam ser usados para manter o pacto, depois que um grupo de prefeitos, governadores, multinacionais e universidades americanas pediu para serem considerados parte ainda do tratado de Paris, num gesto inédito.

Pelo mundo, proliferaram nesta sexta-feira declarações de repúdio à atitude americana, enquanto China e UE fizeram questão de assinar acordos para acelerar a entrada em vigor de medidas ambientais. 

Na quinta-feira, o anúncio de Trump levou dezenas de políticos americanos e grandes conglomerados a se dissociar da decisão da Casa Branca. Na Europa, a reação foi considerada uma oportunidade para se aproximar de grupos dentro dos EUA interessados em manter o pacto.  

No G-7, a ordem entre os dirigentes era o de rejeitar qualquer tentativa de Trump de renegociar um acordo, ainda que o Reino Unido tenha se mantido em grande parte em silêncio.

Mas é uma dissidência interna nos EUA que abriu um caminho para anular na prática a decisão do presidente americano. Nesta sexta-feira, 2, um grupo de 200 prefeitos, governadores e executivos de multinacionais americanas, além de acadêmicos, passou a negociar com a ONU uma forma de garantir que os compromissos dos EUA de redução de 26% das emissões de CO2 americanas fossem cumpridos até 2025. 

Liderando o esforço está Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York e ex-enviado da ONU para Mudanças Climáticas. Numa carta ao secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, Bloomberg apontou que estava confiante de que os “atores não estatais” poderão atingir os mesmos objetivos que o governo de Barack Obama havia assinado, em 2015.

“Enquanto o Poder Executivo do governo dos EUA fala em nome de nossa nação sobre Relações Exteriores, ele não determina muitos aspectos sobre como os EUA tomam ações sobre mudanças climáticas”, escreveu. Segundo ele, a ação americana nesse assunto é, na realidade, “um agregado do que é feito em cidades, estados, empresas e sociedade civil”. 

Gigantes como Facebook, Apple, Ford e Microsoft atacaram a medida de Trump, assim como mais de 30 prefeitos. 

Para líderes estrangeiros, a aliança com esse grupo seria “natural”. A ofensiva europeia ainda contou com atos explícitos de sair em busca da parcela americana que discorda com Trump. A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, indicou que, “seja qual for a decisão da Casa Branca, as cidades estão honrando suas responsabilidades em implementar o Acordo de Paris”. 

O presidente da França, Emmanuell Macron, foi um dos que saiu rapidamente para declarar que seu país estaria disposto a receber os cientistas americanos que optassem por deixar os EUA e trabalhar em formulas para lidar com as mudanças climáticas na França

 

“O Acordo de Paris está aqui para ficar”, disse Miguel Arias Cañete, comissário europeu para o Clima. “Não é negociável e deve ser implementado. É isso que faremos”, afirmou, ao deixar uma cúpula em Bruxelas com a liderança chinesa. “O mundo pode continuar a contar na Europa”, insistiu.

Segundo ele, a luta contra mudanças climáticas “não pode depender do resultado eleitoral de um país”. O espanhol ainda atacou: “tenho qcerteza de que Trump não leu os artigos desse tratado. Não há nada a ser renegociado”, completou.

A chanceler alemã, Angela Merkel, também mandou uma vez mais um duro recado ao governo americano. Para ela, Trump “não pode e não vai parar aqueles que se sentem obrigados a proteger o planeta”. Declarando o acordo como “irreversível”, a alemã insistiu que ficou entusiasmada com a “grande quantidade de empresas americanas que apoiam” o pacto. “Precisamos desse acordo para salvar nossa criação”, disse.

Tanto ela como os demais líderes europeus aproveitaram a cúpula com o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, para garantir que uma nova aliança estava sendo formada. 

Ao concluir a reunião, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, garantiu que Pequim e Bruxelas “não abandonariam suas responsabilidades”. “Estamos convencidos de que a decisão dos EUA de deixar o acordo é um grande erro”, declarou.

Riscos. Apesar do discurso aparentemente coeso da comunidade internacional, diplomatas na ONU reconheceram ao Estado que temem que o gesto de Trump cause dois impactos: uma demora na ratificação do tratado por mais de 20 governos que ainda não o fizeram e uma demora em aplicar os compromissos por aqueles que ainda resistem. 

Na Rússia, um dos países que não ratificou ainda o tratado, o presidente Vladimir Putin afirmou que ele não iria “julgar” a decisão de Trump. “Ele não precisava sair do acordo”, disse. “Tenho certeza que vamos encontrar uma solução”, completou. 

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