Europa Oriental ainda reage a ataque de Chirac

Há mais de uma semana, no dia 17 de fevereiro, o presidente francês, Jacques Chirac, lançou um violento ataque contra um certo número de países do leste - em particular Polônia, Bulgária e Romênia. O motivo: esses países, que são candidatos à União Européia, assinaram a Carta dos Oito, iniciativa do inglês Blair e do espanhol Aznar, se distanciando da posição francesa sobre o Iraque e aprovando o plano guerreiro de Washington.Portanto, Chirac, ainda excitado com o sucesso recente na ONU diante de Powell e Bush, deu uma bronca nos países do Leste Europeu, como se fosse um professor repreendendo um grupo de alunos travessos. Ele descreveu essa Carta dos Oito como uma traição à Europa, o que era um mau sinal para uma Europa futuramente ampliada, se antes mesmo de fazer parte dela esses países abrissem uma brecha na União, defendendo posições da Otan.As reprimendas de Chirac foram muito mal acolhidas em todos os países atingidos. Na Polônia - tradicionalmente partidária da França - há muita raiva. Wladislaw Serafin, poderoso sindicalista agrícola, comparou Chirac a Brejnev. O ex-dissidente Adam Michnik trata Chirac como "personagem grosseiro" e "arrogante".Mas, paralelamente a essas reações violentas, que lembram o estilo dos tablóides britânicos, campeões do mundo do ódio contra Chirac, os poloneses se esforçaram para provar que o processo feito por Paris em Varsóvia é infundado.Chirac desconfia que a Polônia escolheu os Estados Unidos contra a Europa e até de ter entrado na UE só para fazer caixa. Os poloneses responderam com indignação, se justificando. Por exemplo, o ex-ministro de Relações Exteriores Bonislaw Geremek, francófilo ardoroso, disse: "Quando a Polônia declarou sua ligação com os EUA, isso não queria dizer que prefira eles à Europa. A Polônia faz parte da Europa".Os outros países do Leste Europeu também se sentiram atingidos. O jornal búlgaro Standart escreveu: "No passado, o grande poeta búlgaro Gerov escreveu, ao voltar de Paris, um poema sobre a Torre Eiffel: ´De perto, ela é horrível´. Atualmente, chegamos à conclusão de que no país dos galos, há algo além da Torre Eiffel que é horrível de perto. Há também Jacques Chirac".A imprensa húngara é menos vingativa. O jornal Magyar Nemzet reprova até o presidente húngaro por ter se alinhado a Washington. "Que ignorância dos nossos interesses fazer pouco das grandes potências da União Européia, agora que estamos na reta final da adesão".Mas, curiosamente, o comentário mais ofensivo e pérfido sobre a ira de Chirac partiu não de um dos países do Leste Europeu visados pelo presidente francês, mas por um alto funcionário francês, Pierre Hassner, que escreveu no Le Monde essas linhas engenhosas e cruéis: "Ao ver o presidente francês insultar com um misto de desprezo e ameaça os Estados europeus soberanos, não podemos fazer nada a não ser ficar surpresos com a semelhança de estilo e de conteúdo com as propostas de Rumsfeld ou Perle com relação à França e Alemanha. E a evidência se faz clara, contrariamente ao que a vã população pensa: a cooperação franco-americana funciona maravilhosamente".

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