AFP PHOTO / Eric FEFERBERG
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Europa perde rastro de 28 menores por dia após travessia do Mediterrâneo

De acordo com a ONG Oxfam, semanas depois, a maioria dos jovens reaparece nas principais capitais da Europa, em condições de extrema precariedade; somente na França, há 10 mil imigrantes menores de idade, isolados, sem família ou responsável

Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2017 | 05h00

PARIS - Aboubakar Ali deixou o Chade, país de 14 milhões de habitantes na África Subsaariana, há sete meses. Sua família havia retornado ao país natal, deixando a Nigéria em fuga das atrocidades do grupo terrorista Boko Haram. Aos 16 anos, Abou não aceitou voltar e decidiu partir.

De acordo com a ONG Oxfam, que presta auxílio a imigrantes em toda a União Europeia, entre 100 crianças ou adolescentes imigrantes que chegam à Europa, 28 desaparecem por dia na Itália, a porta de entrada para 85% dos imigrantes, em meio ao caos da chegada. Semanas depois, a maioria dos jovens reaparece nas principais capitais da Europa, em condições de extrema precariedade.

Abou colocou uma muda de roupas em dezembro em uma mochila e, sem dinheiro, foi para a Europa – sem avisar os pais. A opção lhe custou caro: foi detido por 15 dias e torturado na Líbia, onde passou fome e sede antes de obter um lugar em um bote inflável, no qual atravessou o Mediterrâneo há três meses. Na Itália, perdeu o lugar em um centro de acolhimento e, até a sexta-feira, vivia sob um viaduto do bairro popular Porte de la Chapelle, em Paris. Na rua, alimenta-se quando pode e vive a expectativa de um sonho pouco realista: o de se fixar na Inglaterra.

Abou é um dos cerca de 10 mil jovens imigrantes, menores de idade e isolados, sem família ou responsável, que vagam pela França. Outras dezenas de milhares, a maioria originária de países subsaarianos em guerra, sob a ameaça terrorista ou em situação de pobreza extrema, como Chade, Sudão ou Níger, estão em situação semelhante nas principais cidades da Itália, da Espanha ou da Alemanha. 

Em geral, estão à espera de uma oportunidade em um centro de acolhimento ou da realização de um desejo distante: o de estudar, trabalhar e integrar-se na Europa. Segundo a Organização Internacional para Imigrações (OIM), em 2016, 25 mil crianças e adolescentes fizeram a travessia do Mediterrâneo – duas vezes mais que em 2015. Pesquisa da Unicef mostra que 75% deles enfrentam humilhações, agressões, assédio ou violência ao longo do caminho. 

Depois de enfrentar o risco da travessia pelo mar – onde 4,5 mil pessoas morreram no ano passado, das quais 700 crianças e adolescentes –, continuam sujeitos às redes de tráfico de seres humanos, à exploração e, mais uma vez, à violência, até mesmo sexual.

Abou conhece os riscos. No Mediterrâneo, só sobreviveu porque o bote de plástico lotado foi resgatado por um barco de uma ONG alemã. “Fomos levados para um centro de imigrantes na Itália. Um dia, saí e acabei me perdendo durante dois dias. Ao voltar, me disseram que não tinha mais lugar, que agora era livre e poderia ir para onde eu quisesse.”

Desde então, vaga pela Europa, sem documentos, sem dinheiro, sem roupas ou alimentação regular. Vive da ação de ONGs e da generosidade de voluntários do lado de fora de um centro de acolhimento no norte de Paris – de onde cerca de 1,5 mil pessoas foram retiradas na sexta-feira para centros de acolhimento no interior da França. 

“Eles me ofereceram um local em um centro de acolhimento, mas eu não quis ir. O problema é que não tenho dinheiro. Sei que não é fácil, mas não quero ficar na França, porque quero ir para a Inglaterra”, diz o jovem. 

Ali Idriss, sudanês de 16 anos que vivia em Darfur antes de partir para um périplo por Egito, Líbia e Itália antes de chegar à França, há oito meses, é outro que vive nas ruas de Paris depois de atravessar o Mediterrâneo pagando € 100 por um lugar em um bote inflável. “Aqui não tenho ninguém. Vim sozinho, não tenho notícias de minha família, nem de amigos”, conta o jovem, que também sonha em chegar a Londres. 

“Darfur não tem liberdade, é muito difícil, perigoso, as pessoas são assassinadas por nada. Eu preciso ir à escola e trabalhar. Por isso, estou tentando ir para a Inglaterra”, diz Idriss, que já tentou a sorte escondendo-se em caminhões que cruzam o Canal da Mancha.

Sudanês de 16 anos, Mohamed Mussah vive na Europa há dois meses, depois de passar por Chade, Níger, Líbia e Itália, após quatro dias no mar. “Na Líbia, fui preso. Fiquei oito ou nove meses no país, quebraram minha perna me espancando e, até hoje, não fiquei bom. Quem não tem dinheiro para o transporte vai para a prisão. Eles batem nas pessoas sem razão nenhuma e alguns são mortos”, conta. 

Desde sua chegada, ele se tornou um andarilho isolado e ainda não teve coragem de contatar o pai, a mãe e os irmãos, nem para dizer que está vivo. “Aqui não tem um lugar para ficarmos, nada para comer”, afirma Mussah, constrangido por viver na rua, sob um viaduto. “Eu só quero ir para a Inglaterra. É o que todo mundo quer.”

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Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2017 | 05h00

PARIS - O preço de uma vaga em um bote inflável despencou no mercado do tráfico de seres humanos. Há cinco anos, quando a travessia era feita em barcos de pesca, a partir do litoral da Tunísia ou da Líbia, uma vaga em uma navio precário chegava a custar € 2 mil. Hoje, em botes plásticos e infláveis, o preço da travessia chega a menos de € 200 – uma queda de 90% –, segundo os imigrantes que chegaram há menos tempo da costa africana.

Esse valor, acessível até mesmo a jovens adolescentes, foi o total pago por Ismail Mohamed, de 16 anos. Nascido no Chade, está há quase dois meses vivendo na rua em Paris, em frente ao centro de acolhimento criado pela prefeitura em Porte de la Chapelle. Antes, ele passou pela Líbia, onde ficou quase três meses à espera de uma oportunidade para atravessar o Mediterrâneo, pela Itália e, enfim, chegar à França. 

“Estou há cinco meses na estrada. Para atravessar o Mediterrâneo, levamos dois dias e paguei em dinares líbios o equivalente a € 200, mais ou menos”, conta o adolescente, que não tem família, só amigos imigrantes espalhados em Paris, onde deseja permanecer.

Outro a pagar o mesmo valor pela travessia foi Said Mohamed, de 16 anos, mais um imigrante do Chade. Também sem o consentimento dos pais, Mohamed deixou seu país para tentar se fixar na França. Ele ainda não tem noção dos direitos que tem como menor isolado na Europa. “Nenhum de nós pediu nenhum tipo de documento ainda”, admite.

O isolamento dos adolescentes e a situação de abandono em que se encontram fazem parte de um contexto de desconfiança na relação entre imigrantes e representantes de organizações não governamentais, de um lado, e autoridades públicas, não só na França, mas em toda a Europa, de outro. 

“Há um sistema que garante a proteção de jovens, mas ele não funciona porque tudo o que precisa ser feito antes do acolhimento, como a identificação, a tomada a cargo, a assistência psicológica, tudo é visto com muita desconfiança”, reconhece François Duchamp, encarregado da Unicef na França. 

Para Duchamp, a situação das crianças e adolescentes abandonados é uma crise à parte dentro do que ele chama de “crise de acolhimento” de imigrantes na Europa. “A primeira urgência é acolhê-los dignamente”, afirma o ativista. “Precisamos também identificar os membros de suas famílias, garantindo o abrigo pelo menos até o caso ser analisado.”

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Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2017 | 05h00

GENEBRA - Milhares de refugiados que atravessam a África até as costas do norte do continente para embarcar no último trajeto até a Europa passam por rotas controladas por grupos criminosos e mesmo extremistas que, com a cumplicidade de militares locais corruptos, extorquem dinheiro de milhares de pessoas. A indústria da clandestinidade entre a África Subsaariana e o Magreb preocupa a União Europeia.

Relatório da Agência de Fronteiras da Europa (Frontex) e de governos africanos como a Etiópia, Níger, Nigéria e Mali indica que o Níger passou a ser considerado o principal ponto de encontro para o tráfico de pessoas. A capital desse esquema está em Agadez, que serve de escala até a Líbia. 

“No momento em que o migrante chega na estação de ônibus de Agadez, ele passa a fazer parte de um mercado dinâmico de serviços de contrabando de seres humanos”, diz o relatório. Na cidade, diversos grupos criminosos atuam em “guetos”. 

O chefe daquela zona é dono não só do local como dos próprios migrantes, além de uma frota de carros. Muitos são veículos capazes de cruzar o deserto ou caminhões roubados da Líbia. O chefe do grupo é o responsável pela logística para permitir que a rede possa operar. Estima-se que existam 140 guetos na cidade.

Os migrantes são divididos por nacionalidade e os comboios em direção ao Norte da África partem quando há gente suficiente para lotar um caminhão. Para atraí-los, membros do gueto tentam convencer os estrangeiros que desembarcam que seu esquema é o mais seguro. 

As saídas ocorrem às segundas-feiras, quando as tropas e comboios militares do Níger se deslocam para o norte do país para abastecer as bases mais distantes. Assim, os contrabandistas e grupos criminosos ganham a proteção de militares. Por semana, são cerca de 17 mil pessoas que fazem esse trajeto. 

Os comboios seguem até o posto das Forças Armadas em Toureyet. A parada seguinte é Dirkou, de onde os veículos com os imigrantes precisam continuar a viagem sozinhos e cruzar o deserto sem a presença dos militares. Em Dirkou, migrantes precisam aguardar na cidade por dias antes de serem transferidos com veículos operados por novos contrabandistas que podem levá-los até Madama. Em Madama, eles atravessam outro posto de controle para poder chegar até Tumo, a fronteira com a Líbia. Tribos nômades do Saara, tuareg e toubou, disputam as rotas e os imigrantes, tidos como ativos valiosos. Confrontos armados entre os dois grupos étnicos são comuns. 

A queda de Muamar Kadafi também colaborou para os confrontos. Desde a morte do ex-ditador, os postos de fronteira da Líbia com o Níger estão desprotegidos e esse vácuo foi preenchido por milícias toubou. Isso permitiu que ela controle o acesso até a cidade líbia de Sabha. Ali, os imigrantes são entregues para tribo, a Awlad Suleiman. 

Pelo caminho, são torturados, alvo de extorsão, sequestrados e mortos quando não há pagamento adequado. A Frontex acredita que as vítimas do deserto superam em grande número as do Mediterrâneo. 

O relatório conclui que operações de salvamento no mar reforçam os lucros dos criminosos. Ao colocar mais barcos para resgatar os migrantes na costa e cada vez mais perto dos portos líbios, os europeus estariam levando a uma redução de custos dos traficantes de pessoas. 

Terroristas

Grupos radicais como a Al-Qaeda no Magreb Islâmico, Ansar al-Dine e outros controlam a rota de fuga de refugiados e lucram com a passagem de milhares em direção à Europa.

No norte do Mali, minorias étnicas da região passaram a colaborar com grupos extremistas para administrar a rota de migrantes, pagando impostos a eles. “Grupos extremistas são vistos como os principais fornecedores de segurança e coletam taxas sobre cada bem contrabandeado em sua área de influência”, indicou a Frontex, em seu relatório de inteligência, no qual afirma que a teia do tráfico de pessoas inclui, além de grupos extremistas e minorias étnicas, políticos e empresários. 

Além de pagar um “pedágio” para continuar a viagem e o serviço do contrabandista, eles são alvos de exploração sexual pelo caminho e por vezes sequestrados até que a família pague um resgate.

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