Europa questiona luta contra o EI

Mesmo os dez meses de bombardeios não enfraqueceram o grupo nem o impediram de realizar novas conquistas territoriais

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2015 | 02h03

Nada menos que 15.675 missões aéreas e 4.423 bombardeios foram lançados no Iraque e na Síria por aviões da coalizão de 20 países contra o Estado Islâmico nos últimos 10 meses. No entanto, a tomada da cidade iraquiana de Ramadi pelos extremistas fez crescer na Europa a preocupação sobre a eficiência da estratégia ocidental de luta contra a organização.

Em meios diplomáticos, militares e acadêmicos europeus, poucos escondem uma evidência: sem tropas de solo, não haverá vitória.

Ainda negada diante dos microfones, a constatação circula nos bastidores e aflorou com força na terça-feira, em Paris, quando representantes de 20 países se reuniram no Ministério das Relações Exteriores da França para discutir o combate oficial ao Estado Islâmico.

Desde agosto de 2014, quando o Ocidente, liderado pelos Estados Unidos e nações árabes, anunciou a formação da coalizão, mais de mil combatentes do grupo terrorista vêm morrendo por mês na Síria e no Iraque, segundo o Pentágono. Mas nada impediu que, nesse meio tempo, o EI realizasse novas conquistas, como Ramadi, no Iraque, e Palmyra, na Síria.

"Há um progresso importante, mas o EI é resiliente e capaz de tomar iniciativas", reconheceu o americano Antony Blinken, secretário adjunto de Estado, à rádio France Inter.

De acordo com o general John Hesterman, que comanda os ataques aéreos no Oriente Médio, os bombardeios provocaram "um efeito profundo sobre o inimigo". Mas, segundo ele, o combate ao EI não pode ser comparado com conflitos envolvendo um exército regular, o que torna a identificação dos alvos mais difícil. Prova disso é que 75% dos aviões que partem para missões voltam sem ter disparado contra o inimigo, para evitar o risco de perdas civis ou de abrir fogo contra militantes aliados no campo de batalha.

Ex-oficiais e experts em defesa ouvidos pelo Estado vão mais longe nas constatações e críticas após dez meses de bombardeios. Segundo eles, a estratégia de bombardeios associados ao suporte de grupos de civis armados já se mostra insuficiente para derrotar o EI.

"Os bombardeios da coalizão já ultrapassaram seu ponto culminante. Eles não são mais capazes de destruir o inimigo, mas apenas conter sua expansão, e com dificuldade", adverte o general Vincent Desportes, ex-diretor do Collège Interarmées de Défense, a universidade militar francesa. "Como em todas as campanhas, o bombardeio como única estratégia é totalmente insuficiente." Para Desportes, a falta de mobilização militar do Ocidente para combater o EI terá consequências internacionais graves no médio e longo prazos. "O EI está fadado a desaparecer, mas é preciso fazê-lo antes que suas metástases se espalhem pelo mundo."

 

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