Europa recebe o fantasma de um líder fracassado

George W. Bush está fazendo sua turnê de despedida pela Europa. Ele chegou ontem à noite à Eslovênia, onde participa hoje da cúpula entre EUA e União Européia. Até o dia 16, ele se reunirá, entre outros, com Angela Merkel em Berlim, com Silvio Berlusconi em Roma, com Nicolas Sarkozy em Paris e com Gordon Brown em Londres. A viagem é, surpreendentemente, demorada. Geralmente, Bush passa rápido pela Europa. Ele não ama o continente, sobretudo depois de 2005, quando os europeus deixaram claro que a guerra do Iraque era uma mentira, uma asneira e um desastre. Para punir a Europa, Bush seguiu o conselho do seu amigo Donald Rumsfeld, referindo-se então à "velha Europa". Agora, Bush quer formar uma frente contra o Irã, estabilizar o Líbano e o Iraque, resolver a questão palestina e derrotar o Taleban no Afeganistão - questões em que o fracasso de Bush já é total. Na verdade, o calendário do giro europeu de Bush é um enorme vazio. O que a Europa vai acolher é uma lembrança. Mesmo os EUA já estão fartos dele. Desdenhado pelo Congresso, ignorado por todos, considerado o pior de todos os presidentes americanos, Bush é rejeitado por todo mundo. Até o candidato republicano John McCain o evita. "Bush já foi esquecido", diz o Washington Post. "O melhor que Bush pode fazer para as relações transatlânticas é deixar o cargo", ataca Jeremy Shapiro, do Centro Europa-EUA, do Brookings Institution. A vantagem dessa despedida é que a Europa pode voltar a amar os EUA. Um dos péssimos serviços que Bush prestou à humanidade foi deixar nas trevas a imagem de seu país. Tanto que as outras nações, fazendo um amálgama entre o país e seu ridículo presidente, passaram a odiar ou a ter pena dos EUA. Um equívoco lamentável, já que Bush foi apenas um erro na escolha do elenco. Na verdade, os EUA são um país admirável, criativo. E uma nação americana poderosa, respeitada e digna é necessária ao mundo. Sem negligenciar os ventos mórbidos que sopram sobre este século, é claro que as falhas americanas azedaram as relações internacionais, reduziram a importância do Ocidente e atiçaram as brasas do islamismo radical. Bush vai percorrer a Europa como um fantasma, uma figura que vimos cruzar nosso caminho um dia, detestamos e nem sabemos mais a razão, pois tudo isso já é passado. Toda a Europa já está à espera do sucessor de Bush. *Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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