REUTERS/Alkis Konstantinidis
REUTERS/Alkis Konstantinidis

Europa receberá 3 milhões de refugiados até 2017

ONU se preocupa com inverno e teme que imigrantes possam morrer de frio ao tentar cruzar o continente; na Ilha de Lesbos, cemitério já está lotado

Jamil Chade, CORRESPONDENTE/GENEBRA, O Estado de S. Paulo

05 de novembro de 2015 | 09h26

GENEBRA - Até 2017, 3 milhões de refugiados desembarcarão na Europa e, apenas neste ano, o volume chegará a 1 milhão, um recorde absoluto que começa a ter um impacto político e econômico sobre a região. Nesta quinta-feira, 5, a ONU e a Comissão Europeia revelaram que suas novas previsões apontam para a chegada de 5 mil pessoas por dia da Turquia ao continente europeu entre novembro e fevereiro de 2016. Na Ilha de Lesbos, na Grécia, o cemitério já está lotado. 

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), 218,3 mil estrangeiros chegaram ao continente cruzando o mar em outubro vindos da Turquia ou do Norte da África, 26% superior ao registrado em setembro, de 172,8 mil. Em apenas um mês, a Europa recebeu mais pessoas que em todo o ano de 2014. 

As previsões tiveram que passar por uma revisão e a ideia de que 700 mil pessoas desembarcariam no continente em 2015 já foi abandonada. Em agosto, a ONU montou seu plano estimando que 1,4 milhão de refugiados chegariam à União Europeia em 2015 e 2016. Mas nos dez primeiros meses do ano, a taxa chegou a 760 mil. Em novembro e dezembro, a perspectiva será de um registro de 300 mil refugiados extras, contra 1,5 milhão em 2016 e mais 500 mil em 2017. 

O que preocupa a ONU, além do inverno e das águas turbulentas do Mar Egeu, entre a Turquia e a Grécia, é que milhares de pessoas podem morrer de frio ao cruzar o continente. A entidade lançou um apelo à comunidade internacional por mais US$ 96 milhões para tentar atender aos refugiados. "As temperaturas baixas vão exacerbar os problemas", alertou a ONU, em um comunicado enviado a todos os governos. 

O dinheiro seria destinado a locais como Croácia, Macedônia e Eslovênia. "Precisamos evitar essa tragédia humanitária e a perda de vidas", alertou a entidade. 

Os abrigos montados até agora de forma improvisada também terão de ser fortalecidos e as barracas em diversos pontos da fronteira não serão suficientes diante da previsão de neve. A ONU também prevê a distribuição de roupas de inverno e de cobertores para aqueles que estiverem fazendo sua travessia. 

Segundo a entidade, diferentes governos já colocaram sistemas de transporte para levar os refugiados. Mesmo assim, em alguns locais, "longas caminhadas ainda são uma realidade". No total, a ONU indica que precisa de US$ 172 milhões para lidar com a crise de refugiados na Europa e faz um apelo para que os governos da região incrementem suas ofertas de ajuda. 

Cemitério. Por enquanto, 3,4 mil pessoas já morreram tentando cruzar o mar. Desde o afogamento do garoto Aylan Kurdi, em uma praia turca, mais de 70 crianças já morreram. Na Ilha de Lesbos, principal porta de entrada hoje para os refugiados, a prefeitura anunciou nesta semana que o cemitério teve de receber mais 500 pessoas neste ano e, hoje, está lotado. A solução tem sido conservar os corpos dos refugiados mortos em contâineres. 

Bruxelas admite que vai ter de incrementar os recursos para o resgate e a integração dessa população. Mas também já começa a fazer o cálculo do impacto econômico. Segundo um levantamento publicado na quarta-feira pela União Europeia, a onda de refugiados vai gerar um aumento do gasto público e tensões no que se refere ao déficit, que pode chegar a 0,2%. 

O fluxo, porém, também vai provocar um aumento da mão-de-obra e, em certos países, um maior equilíbrio entre a força de trabalho e a quantidade de aposentados. Para a Europa, o impacto total será positivo, ainda que de maneira limitada.

A estimativa é de que os refugiados provoquem uma alta de 0,1% no PIB europeu já em 2015. Até 2020, essa taxa pode chegar a 0,3%. 

Mas nem todos ganharão. Em alguns países, a pressão demográfica pode causar uma queda nos salários. "A Europa enfrenta um aumento de pedidos de asilo sem precedentes, o que impõe uma considerável pressão sobre vários países", reconhece a União Europeia.

Urnas. Politicamente, o fluxo de imigrantes já começa a ter repercuções nas urnas. Na Suíça, mesmo sem ter recebido um número significativo de refugiados, o partido de extrema-direita SVP venceu as eleições com uma marca recorde há duas semanas.  

Na Alemanha, a chanceler Angela Merkel enfrenta uma revolta até de pessoas de seu próprio partido. Seu governo quer criar "zonas de trânsito" nas fronteiras com a Áustria para impedir que imigrantes econômicos se aproveitem do fluxo de refugiados. ONGs e mesmo religiosos alertaram esta semana que temem ver a fronteira se transformar em uma grande prisão, em um país que ainda lida com o trauma dos campos de concentração dos anos 30 e 40.


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