StefanosRapanis/Reuters
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Europa rejeita extensão de resgate para a Grécia e se prepara para calote

Bruxelas critica referendo convocado por Tspiras e já planeja medidas para resguardar restante da UE a partir de segunda-feira

Jamil Chade, Correspondente de O Estado de S. Paulo

27 de junho de 2015 | 13h24

GENEBRA - A Europa não aceita o pedido da Grécia para que estenda o socorro para além do prazo do dia 30 de junho, e o pior dos cenários que durante cinco anos foi evitado agora pode estar mais próximo que nunca: o default de Atenas, um colapso de sua economia e uma eventual saída da zona do euro. 

Neste sábado, 27, em Bruxelas, os ministros de Finanças da zona do euro recusaram dar um novo financiamento ao governo grego e criticaram de forma severa a decisão do primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tspiras, de convocar um referendo. Para a União Europeia, ele havia "fechado as portas para futuras negociações ". Enquanto isso, longas filas se formavam em Atenas em caixas eletrônicos diante de um eventual colapso dos bancos a partir deste domingo, 28. 

A Grécia precisava da extensão do resgate para pagar uma parcela de 1,8 bilhão de euros em dívidas que vencem no dia 30. 

"Não houve acordo e o programa (de resgate) vai acabar na terça-feira", sentenciou  o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem. Segundo ele, "o risco existe" de uma saída da Grécia da zona do euro.

Na noite desta sexta-feira, 26, Tsipras anunciou a convocação de um referendo sobre o acordo de resgate proposto pelos credores internacionais. "O povo vai decidir, sem chantagens. O referendo será realizado no dia 5 de julho", declarou Tsipras em cadeia de televisão.

A zona do euro ofereceu bilhões em ajuda se a Grécia aceitasse e implementasse reformas de previdenciárias e tributárias que são um fantasma para o governo eleito em janeiro sob a promessa de acabar com a austeridade. Uma primeira parcela do dinheiro entraria até dia 30, com 1,8 bilhão de euros e permitindo o país sobreviver.

Mas o governo grego não aceitou e preferiu transferir para a população a palavra final, no dia 5. O problema é que, se a Grécia não fechar um acordo no fim de semana para liberar os recursos, o país dará o calote ao Fundo Monetário Internacional (FMI) na terça-feira, 30, possivelmente desencadeando uma corrida aos bancos, controles de capital e levantando dúvidas sobre seu futuro na zona do euro. 

O ministro grego, Yanis Varoufakis, justificou a recusa. "São medidas que vão gerar recessão e que vão distribuir dinheiro daqueles que não têm para aqueles que já têm", alertou o ministro.

Segundo ele, a proposta ainda não era "tecnicamente inadequada". "Os números não fechavam", acusou. "Não temos mandato para assinar proposta que não seja viável e não sustentável", rebateu. "O povo vai ter de ser os árbitros finais", declarou. 

Uma alternativa solicitada pelos gregos era a de estender o pacote de socorro por algumas semanas para acomodar o referendo. A solicitação era por adiamento para efetuar o pagamento que vence na terça-feira, para que a população possa "decidir sem pressão".

Mas o apelo não foi atendido e credores indicaram que cortariam a linha de crédito no dia 30, como previsto. "A recusa vai afetar a credibilidade da UE e por um bom tempo", atacou o ministro grego. 

Depois de três horas de encontros com a delegação grega e diante da falte de um entendimento, os europeus passaram a negociar sem a presença de Atenas para preparar o bloco para o "terremoto" que pode ocorrer nos mercados financeiros a partir de segunda-feira, 29.

O debate, a partir de agora, seria como evitar um caos no setor financeiro, prevenir uma quebra dos bancos gregos e blindar o restante da UE. "Estamos determinados em manter a estabilidade da zona do euro e vamos debater as consequências", indicou. 

Para o ministro de Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, a "Grécia decidiu  encerrar as negociações". Segundo ele, não existe "base" para novas conversas.

O mesmo discurso foi usado pelo ministro finlandês, Alex Stubb. "O referendo significa que eles estão fechando as portas. Estender o programa está fora de questão", disse. "O plano B está se transformando em plano A."

O ministro irlandês, Michael Noonan, também criticou o referendo. "Estamos entrando em águas desconhecidas."

Dijsselbloem não economizou críticas aos gregos e alertou que Atenas agora terá de suportar as "consequências". "Essa é uma decisão triste para a Grécia, pois fecha as portas para negociações futuras", alertou. Para ele, as condições econômicas e sociais na Grécia vão "piorar de forma muito dramática". 

"Colocar essa decisão para o povo é injusto", atacou o europeu. Para Christine Lagarde, gerente do FMI, as propostas "sempre mostraram flexibilidade". 

Controle. Sobre a imposição de controles de capital para evitar uma corrida aos bancos, Dijsselbloem reconheceu que essa será uma decisão que Tsipras terá de tomar. "Mas é muito triste", disse.

Os europeus insistem que tais controles teriam de existir. Mas Atenas alerta que não tem uma posição final ainda. 

Tsipras, que neste sábado foi ovacionado em seu parlamento ao iniciar o debate sobre o referendo, assegurou que respeitará qualquer que seja a vontade do povo. "Quero que respondam a essa questão com orgulho e responsabilidade", disse o primeiro-ministro grego, insistindo que a Grécia precisa enviar uma mensagem de democracia para a Europa. Ainda neste sábado, o Parlamento grego votaria se o referendo seria mantido.

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