Muhammed Muheisen/AP
Muhammed Muheisen/AP

Europa sob rolo compressor

A população crescerá mais que o esperado e mais pessoas imigrarão

Eduardo Porter*, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2015 | 02h00

Provavelmente, os líderes europeus não querem ouvir falar nisso agora, enquanto procuram fechar suas fronteiras aos imigrantes desesperados. Mas estão se deparando com a força irrefreável da demografia.

Fronteiras fortificadas talvez freiem o seu ímpeto, até certo ponto. Mas quanto mais cedo a Europa reconhecer que tem pela frente décadas de forte imigração, mais cedo porá em prática políticas imprescindíveis para ajudar na integração de populações de imigrantes em suas economias e sociedades.

A tarefa não será fácil. Há muito tempo é um desafio para todos os países ricos, mas em um sentido crucial a Europa realiza de modo particularmente medíocre a missão.

Talvez não surpreenda, como concluiu um recente relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, que é mais difícil para os imigrantes conseguir um emprego nas nações da União Europeia do que na maioria dos países mais ricos. Mas isso não explica o motivo pelo qual ela é também mais difícil para seus filhos nascidos na Europa, que relatam uma discriminação ainda maior do que seus pais, e estão sujeitos a taxas maiores de desemprego do que os filhos dos nativos.

Em lugar de fortificar suas fronteiras, os países europeus deveriam procurar melhorar essa situação. Os benefícios seriam substanciais, tanto para os cidadãos europeus quanto para o restante do mundo.

Segundo recente avaliação da Divisão da População da ONU, a previsão é que, em meados do século, a população chegará a quase 10 bilhões, e ultrapassará os 11 bilhões até 2100. E a maior parte do crescimento se dará nas regiões pobres do mundo, dilaceradas pelas guerras, que despacham imigrantes para a Europa em busca de segurança e uma vida melhor.

A população da África, que já cresceu 50% desde a virada do século, deverá dobrar até 2050, para 2,5 bilhões de pessoas. A população da África do Sul poderá crescer mais de meio bilhão. E a densidade populacional da Palestina poderá dobrar para 1.626 pessoas por km², três vezes a da Índia.

Nas próximas décadas, milhões de pessoas deixarão essas regiões pela guerra, falta de oportunidades e os conflitos sobre os recursos, provocados pelas mudanças climáticas. A rica Europa inevitavelmente será o principal destino dos fugitivos.

"Com a probabilidade de a população da África aumentar em mais de 3 bilhões nos próximos 85 anos, a UE poderá enfrentar uma onda migratória que faz parecer o atual debate sobre a aceitação de centenas de milhares de pessoas em busca de asilo parecer irrelevante", escreveu Adair Turner, presidente do Instituto para o Novo Pensamento Econômico. A rica história da imigração em todo o mundo sugere que as novas populações de imigrantes poderão se integrar no tecido social europeu em benefício dos próprios europeus.

Os países ricos com baixas taxas de fertilidade e populações mais idosas beneficiam-se com os migrantes jovens em idade de trabalhar, que contribuem para aumentar sua mão de obra reduzida. De 2000 a 2010, os migrantes representaram cerca de dois terços do crescimento da força de trabalho europeia. Os imigrantes contribuem com a diversidade para complementar os atributos dos trabalhadores nacionais, graças a diferentes níveis de educação e produtividade.

Eles permitem que os trabalhadores nacionais passem a desempenhar tarefas que levam em conta sua capacidade no que se refere à língua e outras vantagens comparativas. No final, a escolha é clara. O melhor para a prosperidade da Europa será explorar a diversidade da imigração./ Tradução de Anna Capovilla

* É colunista do The New York Times

Mais conteúdo sobre:
visão globalimigranteseuropa

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.