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Europa teme que a retomada de Mossul acelere retorno de extremistas

Segundo estimativa do comissário europeu de segurança, Julian King, cerca de 2,5 mil cidadãos com passaporte de algum país do continente teriam se juntado ao grupo extremista na Síria e no Iraque

O Estado de S. Paulo

19 de outubro de 2016 | 09h57

BERLIM - Os europeus temem que se as forças iraquianas recuperarem Mossul, o último grande reduto do grupo Estado Islâmico (EI) no Iraque, se acelere o retorno dos extremistas ao continente, aumentando o risco de atentados. 

"A recuperação de Mossul, reduto do EI no norte do Iraque, pode fazer com que os combatentes do grupo preparados para combater voltem à Europa", declarou o comissário europeu de segurança, Julian King, ao jornal alemão Die Welt. "Até mesmo um pequeno número (de extremistas) representa uma ameaça séria, perante a qual devemos nos preparar, aumentando a nossa capacidade de resistência diante ameaça terrorista."

Segundo King, o EI conta no Iraque e na Síria com 2,5 mil combatentes europeus. Entre eles, várias centenas de franceses, britânicos e alemães. "Os serviços de segurança devem apagar o incêndio e fazer desaparecer o risco que estas pessoas representam" caso voltem, admitiu recentemente o chefe dos serviços de inteligência interior alemão, Hans-Georg Maassen.

Segundo a imprensa alemã, são necessários dez policiais para vigiar noite e dia um islamita que retorna à região, mas estes já estão sobrecarregados vigiando as pessoas potencialmente perigosas que nunca deixaram o país.

Na França, segundo fontes de segurança, 400 franceses continuam na região, entre eles 150 combatentes. O restante são familiares. O ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Marc Ayrault, alertou para o risco "de menores que se tornariam radicalizados".

Em caso de derrota militar do EI em Mossul, "alguns tentarão mudar de lugar, outros tentarão talvez de voltar para a França. Este é um grande problema", diz uma fonte de segurança francesa, que pede, no entanto, para "relativizar" a ameaça "com relação, por exemplo, aos chechenos".

E é que o retorno dos extremistas do Iraque ou da Síria também representa uma ameaça para países como a Rússia ou os do Magreb, incluindo a Líbia.

Milhares de tunisianos se uniram às fileiras de grupos extremistas, fornecendo o maior contingente de "combatentes" estrangeiros. Também contam com muitos cidadãos de repúblicas caucasianas russas e dos países da Ásia central.

Segundo outra fonte de segurança francesa, os esforços do Exército iraquiano e da coalizão internacional estarão encaminhados a "interceptar o maior número" possível de extremistas "saindo de Mossul" e depois "bloqueá-los em Raqqa", "capital" dos extremistas na Síria.

O tema preocupa muito na Europa, uma vez que os atentados sangrentos de Paris, em novembro de 2015 (130 mortos), e de Bruxelas, em março (32 mortos) foram cometidos ou planejados, em parte, por combatentes que voltaram da Síria, como Abdelhamid Abaaoud.

"Acho que o EI entra em uma nova fase" pelas perdas territoriais sofridas pela organização na Síria e no Iraque, que deterioram seu projeto de califado na região, explica Chris Phillips, diretor da agência Ippso, especializada em assessoria antiterrorista.

"Haverá um aumento no número de ataques terroristas no norte da África e no Ocidente", declarou Phillips, avaliando que o fenômeno "se amplifica pela crise dos refugiados", o que permitiu a alguns extremistas retornar à Europa incógnitos, misturando-se aos migrantes.

Se o EI "não é capaz de projetar a mesma visão de vitória e de poder do passado, o número de combatentes desmobilizados que tentam fugir do califado aumentará", afirmou Raffaello Pantucci, analista do Royal United Services Institute, na edição de terça-feira do Daily Telegraph. / AFP

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