Europa triplica verba para vigiar o Mediterrâneo e conter imigração

Operação não terá caráter de salvamento e cúpula adiou para junho questão de acolhimento e repatriamento de ilegais,

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2015 | 02h03

Líderes políticos da União Europeia decidiram na noite de ontem, em uma reunião de cúpula para tratar de imigração, triplicar para € 120 milhões o orçamento anual da Operação Triton, que realiza a vigilância das águas territoriais do continente no Mar Mediterrâneo. Em uma resposta incompleta após a sequência de naufrágios trágicos, chefes de Estado e de governo reunidos em Bruxelas também adiaram para junho a adoção de novas medidas sobre acolhimento e repatriamento de estrangeiros que chegam ao bloco de forma ilegal.

As deliberações foram anunciadas na noite de ontem pelo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, ao término do encontro. Na prática, a morte de mais de 800 imigrantes no Mediterrâneo na semana passada só levou Bruxelas recuar de sua decisão de cortar o orçamento da Operação Mare Nostrum, de caráter humanitário, que vigorou até novembro.

Em seu lugar, a Agência Europeia de Fronteiras Exteriores (Frontex) passou a realizar a operação Triton, que tinha orçamento de € 40 milhões - um terço da Mare Nostrum -, com menos helicópteros de Guarda Costeira e soldados envolvidos. A área de buscas no Mediterrâneo também ficou muito inferior: enquanto a Mare Nostrum patrulhava 318 quilômetros de distância das costas europeias, incluindo as ilhas de Lampedusa e Malta, a operação em vigor se limita a 55 quilômetros de costa, não inclui as ilhas e não tem como ênfase o salvamento, mas apenas o patrulhamento. A diferença se traduz pelo número de imigrantes recolhidos do mar e salvos de eventuais naufrágios: 150 mil em um ano de Mare Nostrum, e 11,4 mil em seis meses de Triton, segundo a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR).

A alteração da política naval no Mediterrâneo vinha sendo reivindicada por ONGs como Anistia Internacional, que acusaram a Europa de estar entre os responsáveis pelo maior número de tragédias no mar. Em resposta, Juncker anunciou que Triton passará a contar com o mesmo orçamento da Mare Nostrum. Mas nem o presidente da Comissão Europeia escondeu a frustração com a falta de iniciativas de maior impacto de parte dos líderes políticos.

Para Juncker, não é necessário mudar a orientação da operação Triton, nem reforçar seu caráter humanitário. Bruxelas estudava lançar uma operação militar para combater a ação dos traficantes que ganham dinheiro promovendo a imigração clandestina. O premiê da Itália, Matteo Renzi, chegou a pedir à União Europeia que realizasse ações militares pontuais para destruir embarcações clandestinas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.