Europa usará ameaça de armar rebeldes para forçar Rússia a abandonar Assad

Mais do que armar a oposição ao regime de Bashar Assad, a decisão da União Europeia de suspender o embargo à Síria - e fixar um prazo, 1.º de agosto, para liberar o armamento - pretende pressionar a Rússia a ceder em seu apoio incondicional a Damasco. Não por acaso, a decisão foi anunciada às vésperas de uma reunião tripartite marcada para quarta-feira em Genebra, entre representantes dos EUA, da Rússia e da ONU.

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

02 Junho 2013 | 02h06

O encontro será a primeira etapa para uma conferência de paz sobre a Síria, agendada para este mês. Se ocorrer, a cúpula terá caráter multilateral, com a presença de países ocidentais, da Liga Árabe e - em um cenário ideal - de representantes de Assad, da Coalizão Nacional Síria (CNS), o maior grupo oposicionista em guerra, e do Exército Sírio Livre (ESL), seu braço armado.

Na semana passada, chanceleres da maior parte dos 27 países decidiram partir para a ofensiva e tentar impor um fim aos 26 meses de guerra civil, que já deixou mais de 80 mil mortos. O objetivo dos chanceleres, com o fim do embargo à Síria, foi enviar um sinal político forte à Rússia: se Assad pretende continuar no poder massacrando sua oposição, os rebeldes passarão a contar, em 1.º de agosto, com material bélico enviado por França e Grã-Bretanha. A decisão de enviar fuzis, lança-granadas e foguetes antiaéreos, armas para combater veículos blindados, helicópteros e aviões bombardeios usados pelo regime, já está tomada em Paris e Londres.

A iniciativa de fornecer armas, entretanto, não quer dizer que a Europa esteja segura em relação aos grupos sírios de oposição. A ideia é evitar esse fornecimento, convencendo Vladimir Putin por vias diplomáticas. Isso impediria que o armamento caia, mesmo no pós-guerra, nas mãos de grupos jihadistas como a Brigada Al-Nusra, ligada à Al-Qaeda, que atua no país ao lado dos revolucionários.

"A verdade é que ninguém sabe o que pode acontecer no pós-Assad", reconheceu ao Estado um diplomata francês. Segundo o raciocínio dos negociadores, algo precisa ser feito, sob pena de que a Síria seja destruída e a guerra se estenda para outros países da região, como Líbano ou Turquia. Isso não significa que os diplomatas saibam em quanto tempo será possível derrubar Assad. "O que sabemos, com certeza, é que do jeito que está não pode continuar", argumenta o diplomata.

A iniciativa franco-britânica, entretanto, tem críticos mesmo em altas esferas da União Europeia. Nesta semana, o chanceler da Holanda, Frans Timmermans, não hesitou em criticar a estratégia do bloco, que, segundo ele, "poderá encorajar a Rússia a enviar ainda mais armas" à Síria. Michael Spindelegger, chanceler da Áustria, foi no mesmo sentido, advertindo que o fornecimento de material bélico a uma zona de conflito é uma prática "contrária aos princípios da Europa".

Entre analistas, o assunto também desperta controvérsia. "É uma péssima ideia, porque os que estão na Coalizão Nacional Síria, reconhecidos como representantes legítimos do povo sírio, não têm exército próprio", afirmou à rádio RMC, de Paris, o cientista político Bassam Tahhan, nascido na Síria e partidário de Assad. "Quem luta são os grupos jihadistas e mercenários. Logo, não sabemos quem vai receber as armas."

A preocupação com a posição da UE não é só de experts partidários de Assad. Isso porque o temor é o de que o fornecimento de armas estimule uma instabilidade política como a vista na Líbia pós-Muamar Kadafi. Após a revolução, não apenas grupos jihadistas líbios dispuseram de um arsenal para suas ações, mas também extremistas no Mali, no Chade, no Níger, na Argélia e na Tunísia. "A quem vamos entregar as armas, sem temer que elas caiam a seguir em mãos duvidosas?", questiona o general francês Jean-Patrick Gaviard, ex-chefe de operações do Exército.

Além da Líbia, o especialista lembra que a estratégia de armar grupos rebeldes foi adotada pelos Estados Unidos no Afeganistão em luta contra a União Soviética, prática que resultou no reforço do Taleban. Além de especialistas, organizações humanitárias, como a Oxfam, vêm advertindo para as "consequências devastadoras" que o fornecimento de armas aos rebeldes teria para a população civil do país.

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