Niklas HALL'N/AFP
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Em meio a alta de casos, falta de leitos e equipes de saúde preocupam Europa

Neste caótico ano de pandemia, a única constante tem sido a pressão sobre os trabalhadores da linha de frente, que já estão se preparando para o próximo surto

Jason Horowitz / The New York Times, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2020 | 05h00

O coronavírus começou assolando a Europa com uma onda de infecções que quase colapsou seus hospitais – exaurindo, infectando e matando médicos e enfermeiros. Os lockdowns abriram algum espaço nas enfermarias de terapia intensiva, mas isso durou pouco. Nos últimos meses, o continente testemunha mais uma onda atingir seus países com força quase igual. Os corredores dos hospitais voltaram a ficar lotados e os respiradores, sobrecarregados.

Com o aumento das taxas de mortalidade, os governos impuseram novas restrições, na esperança de salvar suas economias e, ao mesmo tempo, manter o vírus sob controle. Não deu certo. Em dezembro, os gráficos que traçam o curso da pandemia pareciam mais uma montanha-russa do que uma curva.

A única constante de tudo isto tem sido a pressão sobre os trabalhadores da linha de frente nos hospitais – que correram riscos maiores do que a maioria, ajudaram a curar os doentes e tiraram inúmeros infectados da beira da morte. 

Poucos países na Europa relatam o status dos trabalhadores de saúde dos casos de covid-19 como parte de relatórios epidemiológicos de rotina. Mas em geral, como mostrou um estudo publicado pelo americano National Center for Biotechnology Information, esses profissionais correm um risco 3,4 vezes maior do que as outras pessoas de testar positivo para a covid-19. 

Segundo uma reportagem de novembro da revista Forbes, citando um estudo feito em 37 países do International Journal of Infectious Diseases, quase 300 mil profissionais de saúde foram infectados com covid-19 e mais de 2.500 morreram até agosto.

Não ajudou a Europa o fato de seus líderes ainda estarem lutando para controlar uma pandemia que escapou de todas as suas prescrições políticas. Basta dizer que o próprio presidente Emmanuel Macron testou positivo para o coronavírus este mês. 

A gente achava que tinha acabado”, disse Gabriele Ponti, de 58 anos, enfermeiro do hospital Papa Giovanni XXIII em Bergamo, epicentro da primeira onda da epidemia no norte da Itália. “A pergunta agora é: vai ser melhor ou pior do que já foi?”, disse ele.

Os fardos já consideráveis que caem sobre os profissionais de saúde pioraram em todo o continente nas últimas semanas, de acordo com o Centro Europeu para Controle e Prevenção de Doenças, uma agência da União Europeia.

A ocupação e as internações em hospitais e unidades de terapia intensiva aumentaram entre a segunda e terceira semana deste mês em pelo menos uma dúzia de países. “A transmissão ainda está generalizada”, alertou um documento no final da semana passada.

No Reino Unido, o primeiro-ministro Boris Johnson, enfrentando uma cepa do vírus que se espalha mais rapidamente, isolou Londres e grande parte do sudeste da Inglaterra e proibiu as comemorações de Natal fora das residências. 

Os hospitais do país estão cancelando procedimentos não urgentes e lutando para encontrar espaço para pacientes com covid-19.

As autoridades colocaram uma área da Inglaterra que abriga 24 milhões de pessoas sob restrições que exigem o fechamento de lojas não essenciais e permitiram que restaurantes e pubs operem apenas se os clientes levarem os alimentos.

Mesmo assim, as internações hospitalares para covid-19 nessa região estão se aproximando e até excedendo os níveis observados no primeiro pico. Os números do governo mostram que 21.286 pessoas estavam  hospitalizadas com o coronavírus em todo o Reino Unido no dia 22, último dado disponível. O número é apenas um pouco abaixo da alta de 21.683 pacientes com covid-19 que foram registrados em hospitais do país em 12 de abril. Nesta segunda-feira, o país registrou 41.385 novos casos de Covid-19 nesta segunda-feira, um recorde diário. 

Alemanha

Em entrevista ao site da Deutsche Welle este mês, o médico e membro da Associação Alemã de Cuidados Críticos e Medicina de Emergência (DIVI) Uwe Janssens afirmou que a Alemanha corre o risco de escassez de leitos em unidades de terapia intensiva se o número de casos de coronavírus continuar aumentando. 

A situação, segundo ele, é bastante crítica em alguns locais do país. “Temos áreas onde a capacidade da UTI deixou apenas de 5 a 10% dos leitos abertos. Isso não é suficiente para cobrir a ampla gama de pacientes gravemente doentes”, disse ele.

França

No início e em meados de novembro, o ressurgimento do vírus quase quebrou o sistema de saúde francês. Enquanto os hospitais do país registravam cerca de 3 mil novos pacientes de covid-19 por dia, número não visto desde abril, até 97% dos leitos de terapia intensiva estavam ocupados com quase 5 mil pacientes de covid-19. Desde então, esse número caiu para cerca de 2.800 pacientes, os quais ocupam menos de 60% desses leitos, de acordo com dados do governo francês.

A região de Auvergne-Rhône-Alpes, que abrange o centro e o sudeste da França, tem uma infraestrutura médica menos desenvolvida do que outras partes do país e foi mais atingida pela segunda onda. Ali, 86% dos leitos de terapia intensiva ainda estão ocupados por pacientes de covid-19.

Myriam Ladreyt, enfermeira na região, disse que o hospital onde trabalhava tinha apenas 12 leitos de terapia intensiva. Ela costumava trabalhar na unidade cirúrgica, mas se ofereceu para cuidar de pacientes com coronavírus e ficou surpresa com o tempo que as pessoas levavam para se recuperar. “Alguns simplesmente não vão embora”, disse ela.

Ela contou sobre um casal de 60 anos que morreu após contrair a doença de seu neto e falou de médicos que tiveram de fazer escolhas impossíveis. “As pessoas com mais de 80 anos que chegam ao pronto-socorro não são levadas para a terapia intensiva”, disse Ladreyt. “É meio chocante ouvir uma coisa dessas”.

Na República Checa, tudo muito frágil 

Na República Checa, depois de várias semanas de declínio constante na quantidade de novos pacientes com coronavírus, os números começaram a aumentar novamente este mês, e agora há mais de 4.600 pessoas nos hospitais do país. Na semana passada, as autoridades registraram o maior aumento diário de novos casos nas últimas duas semanas: 8.235 pessoas testaram positivo.

Para conter a nova maré, o governo impôs restrições severas, fechando restaurantes e bares, impondo toques de recolher para impedir a movimentação de pessoas entre onze da noite e cinco da manhã e limitando as reuniões internas e externas a um máximo de seis participantes.

Para os exaustos profissionais de saúde do país, as restrições chegaram tarde demais. “Estamos cansados e esse negócio parece não ter fim”, disse Barbora Marcakova, enfermeira-chefe da unidade de emergência do Hospital Universitário de Brno.

A exemplo de seus colegas de todo o continente, Marcakova se acostumou com os protocolos e medidas de proteção exigidas para cuidar de pacientes com covid-19. “O hospital está de cabeça para baixo e não temos pessoal”, disse Radana Parizkova, chefe da clínica de doenças infecciosas do hospital. “Nunca pensei que veria uma coisa dessas na minha vida”. 

A boa vontade, disse Marcakova, está evaporando. “Também temos que enfrentar parentes que, infelizmente, estão mais irritados e desagradáveis do que na primeira onda”, disse ela. “As pessoas chegam a nos culpar quando alguém morre. É muito difícil lidar com isso.”

Itália

O governador do Veneto, Luca Zaia, no nordeste da Itália, onde morreu o primeiro italiano de covid, disse que os hospitais da região agora estão mais sobrecarregados do que em março. O necrotério do hospital de uma cidade teve de transferir seu excesso de cadáveres. Perto dali, na rica região da Lombardia, no norte da Itália, a situação é igualmente alarmante.

A Lombardia é conhecida por seus hospitais bem equipados, mas a primeira onda do vírus quase os fez colapsar. Varese, cidade na fronteira norte da região, não foi poupada. Mas, no verão (norte), quando um lockdown nacional trouxe algum alívio, os hospitais da cidade se prepararam: expandiram sua capacidade de tratamento intensivo, contrataram mais funcionários e carregaram tanques de oxigênio. Os casos começaram a aumentar em outubro, com as novas admissões rapidamente ultrapassando o número de pessoas que se recuperavam e tinham alta.

“Não imaginávamos que nos tornaríamos o hospital italiano com o maior número de pacientes com covid”, disse Francesca Mauri, porta-voz de vários hospitais de Varese. Ela disse que, em certo hospital, 450 dos cerca de 500 leitos estavam ocupados por pacientes com coronavírus em novembro.

No Ospedale di Circolo, hospital que no meio do ano tinha apenas 15 leitos de terapia intensiva, um andar reservado para pacientes com coronavírus, agora se expandiu para 48 leitos, suplantando as unidades de tratamento intensivo para cirurgia cardíaca e cerebral.

Ao todo, os pacientes de covid-19 agora ocupam três andares e inalam 18 mil litros de oxigênio por dia, em comparação com os 15 mil litros por semana que costumavam ser usados por todos os pacientes do hospital.

No início de novembro, a Itália começou a impor restrições cada vez mais severas para reduzir o número de infecções e aliviar a carga sobre os hospitais. As medidas começaram a dar frutos. Mas cerca de 38% dos leitos de terapia intensiva e 45% de todos os leitos hospitalares ainda estão ocupados por pacientes com coronavírus, de acordo com o governo italiano.

O número de italianos que precisam de hospitalização continua alto. Tal situação é especialmente perigosa no sul, região menos favorecida da Itália. Na Calábria, onde a corrupção e a má gestão há muito corroem o sistema de saúde, três comissários de saúde foram demitidos ou afastados em novembro.

Ambulâncias fazem fila na porta dos hospitais. O Exército montou hospitais de campanha perto das estações de trem. E o primeiro-ministro, que introduziu um novo lockdown para o período do Natal até o ano-novo, pediu ajuda à organização humanitária Emergency, que respondeu enviando 20 médicos e enfermeiros para um hospital na cidade portuária de Crotone.

Em Nápoles, no mês passado, um homem com suspeita de infecção por coronavírus morreu no banheiro do lotado pronto-socorro do hospital Cardarelli. Enfermeiras distribuíam tanques de oxigênio aos pacientes que esperavam dentro de seus carros. E os médicos cumpriam turnos extras para atender às necessidades de todos os pacientes com covid. 

Situação preocupante na Espanha

O surto inicial do vírus pegou os hospitais espanhóis de surpresa. Muitos profissionais de saúde enfrentaram a epidemia sem equipamentos de proteção adequados e foram infectados. Nos hospitais de Madri, alguns pacientes dormiam nos corredores. De maneira geral, a reação da Espanha minou a reputação de um sistema público de saúde do qual muitos espanhóis se orgulhavam.

Houve reação governamental a uma explosão de novos casos entre outubro e novembro. As restrições à circulação produziram melhorias em muitas regiões e aliviaram significativamente a pressão sobre os hospitais do país. Até poucos dias atrás, menos de 10% dos leitos hospitalares da Espanha – e 21% das unidades de terapia intensiva – estavam ocupados por pacientes com coronavírus, de acordo com o Ministério da Saúde. / Com Reuters, AP e AFP

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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