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Europeu e jihadista

PARIS - A Síria tornou-se o destino preferido dos jovens ocidentais que sonham em participar do vasto combate planetário que o islamismo radical trava contra o Ocidente, contra seus valores, seus direitos humanos, suas democracias, seus habeas corpus, suas religiões, seu humanismo. É fato que há muitos jovens europeus que se unem a grupos jihadistas com base na África Negra, no Sahel, na Somália, mas é sobretudo a Síria que fascina os jovens desesperados.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2014 | 02h03

Há tempo que o fenômeno é conhecido, mas associado principalmente à rubrica "variedades". Ficava-se sabendo que um jovem francês havia partido para o Oriente Médio. Sua família lamentava. Hoje, estamos diante de um movimento massivo.

Em Bruxelas, o coordenador da política antiterrorista da União Europeia, Gilles de Karchove, fornece seus números angustiantes: atuam na Síria 2 mil combatentes estrangeiros, entre os quais um grande número de europeus. A França forneceu um contingente forte: 250 jovens franceses combatem na Síria nas fileiras dos jihadistas, 50 a mais do que em outubro de 2013. A polícia observou que outros 150 franceses têm a intenção de se juntar ao combate. Vinte franceses foram mortos na Síria.

Esses islamistas são franceses, mas em geral provieram de regiões próximas do Islã. Um terço é originário do Cáucaso, particularmente da Chechênia. Outro terço é de ascendência magrebina (Argélia, Marrocos, Tunísia), e o último terço é constituído de franceses recentemente convertidos à religião islâmica. Esses iluminados são cada vez mais jovens. Dois estudantes de ensino médio franceses acabam de anunciar a seus pais que estão em ação na Síria. Eles têm 15 e 16 anos.

Curiosamente, trata-se com frequência de aventuras individuais. Não existe uma organização secreta encarregada de recrutar e encaminhar para a Síria esses jovens. Cada caso é singular. Os candidatos se viram sozinhos. Eles chegam à região, em geral à Turquia, em aviões de carreira. Lá, eles se infiltram através das fronteiras para se unir aos combatentes.

Uma vez na Síria, os chefes das brigadas jihadistas os alistam. Depois de algumas semanas, uma tendência dramática se manifesta: é amiúde entre os jovens europeus, especialmente os franceses, que são escolhidos os candidatos a suicida. Um mês atrás, um jovem de Toulouse se explodiu junto com seu caminhão na região de Homs. Casos similares são cada vez menos excepcionais.

Entre as motivações, duas se destacam. Alguns se engajam na Síria antes de tudo por aversão ao "tirano sanguinário" Bashar Assad. Em suma, eles aderem ao combate que a própria França trava já que Paris está na linha de frente da luta contra Bashar Assad.

Mas alguns desses "jihadistas" franceses reivindicam outras motivações. Eles se interessam menos pela sorte da Síria do que pela "revolução islâmica universal". Eles acatam a estratégia da Al-Qaeda.

Recentemente, foi criado um ramo da Al-Qaeda que se diz "transnacional", o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil, na sigla em inglês) que age tanto no Iraque quanto na Síria, ou em qualquer outra parte do Oriente Médio. Alguns europeus podem lutar também, ora no Iraque, ora na Síria. É a mesma luta universal.

Ocorre até de famílias francesas inteiras se instalarem em certos povoados da Síria ou na zona fronteiriça turca. Não se trata de combatentes. Elas ganham a vida nesses locais. O pai arruma um pequeno negócio e toda a família está lá, toda a família espera. Espera o quê? O advento do "califado islâmico". E quando se diz a esses pais de família que isso pode levar algum tempo, eles sorriem. São pacientes.

Eles dizem: "Nós temos todo o tempo". Eles se inscrevem no "longo prazo".

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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