Europeus condenam declarações de Berlusconi

"Nós devemos estar conscientes da superioridade da nossa civilização ... um sistema de valores que permitiu a todos os países que obtiveram ampla prosperidade garantindo o respeito aos direitos do homem e às liberdades religiosas... um respeito que certamente não existe nos países islâmicos."Essas declarações do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, feitas quarta-feira em Berlim, onde havia se encontrado com o chanceler alemão Gerhard Schroeder e o presidente russo Vladimir Putin, não só irritaram fortemente os dirigentes dos países árabes, mas chocaram e criaram um clima de grande consternação nos próprios dirigentes europeus.As reações européias de rejeição das declarações foram imediatas e indignadas, incluindo a do próprio presidente da Comissão Européia, o italiano Romano Prodi. A Liga Arabe está exigindo uma retratação imediata do primeiro-ministro italiano. O secretário-geral da liga, Amr Moussa, definiu as afirmações como racistas e se declarou surpreso de ver um chefe de governo europeu se manifestar nesses termos. Para Moussa, Berlusconi "transpôs a linha da decência".O primeiro-ministro belga Guy Horvfstat, que preside atualmente a União Européia (UE), advertiu para os perigos que essas afirmações podem representar num momento extremamente delicado da vida política da comunidade internacional. Ele as condenou explicitamente, afirmando que só contribuem para "alimentar um sentimento de humilhação".Ninguém imagina na Europa que as declarações foram uma simples gafe do líder italiano. A convicção é de que elas representam a essência do pensamento de Berlusconi, pois ele foi além ao tentar comparar os atentados ao World Trade Center e ao Pentágono às manifestações ocorridas em Gênova durante a reunião do G7, em julho. Para Berlusconi, houve uma singular coincidência entre os manifestantes antiglobalização e os terroristas de Nova York e Washington."Os terroristas pretenderam estancar as influências corruptoras da civilização ocidental sobre o mundo islâmico, enquanto o movimento antiglobalização critica de seu interior a maneira de viver ocidental, procurando fazê-la sentir-se culpada", disse.Acuado, Berlusconi convocou para uma reunião o mais antigo dos embaixadores árabes em Roma. As emissoras de televisão européias repetiram as "refletidas" declarações do governante italiano em Berlim, muito provavelmente inspiradas no passado.As primeiras conseqüências das declarações infelizes puderam ser constatadas hoje no plano diplomático internacional, comprometendo parcialmente a missão dos comissários e ministros europeus que estão percorrendo os países árabes em busca de apoio para tornar mais eficaz a coalizão que se dispõe a lutar contra o terrorismo. Louis Michel, chanceler belga, falando em nome dos colegas, disse que as palavras do líder italiano são totalmente inaceitáveis e "contrárias aos valores europeus".

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