Europeus precisam dos imigrantes

Seja por razão humanitária, seja por questão estratégica para equilíbrio da previdência no futuro, acolhida é necessária

Joschka Fischer / Project Syndicate, O Estado de S. Paulo

30 de agosto de 2015 | 03h01

Durante muitos séculos, a Europa foi um continente devastado pelas guerras, pela fome e pela pobreza. Milhões de europeus foram obrigados a emigrar ao longo do tempo em razão das dificuldades sociais e econômicas. Eles atravessaram o Atlântico rumo às Américas do Norte e do Sul – e também a lugares mais distantes ainda, como a Austrália, para fugir da miséria e à procura de uma vida melhor para si e para seus filhos.

Todos eles, no jargão do atual debate sobre refugiados e migração, eram “migrantes econômicos”. No século 20, a perseguição racial, a opressão política e a destruição provocada por duas guerras mundiais tornaram-se as causas predominantes da fuga em massa.

Hoje, a União Europeia é uma das regiões econômicas mais ricas do mundo. Há dezenas de anos, a maioria esmagadora dos europeus vive em países democráticos e pacíficos, que defendem seus direitos fundamentais. A miséria e a migração da Europa tornaram-se uma lembrança distante – quando não foram totalmente esquecidas.

Ainda assim, no entanto, muitos europeus sentem-se mais uma vez ameaçados, não pela Rússia, que avança agressivamente contra seus vizinhos, mas pelos refugiados e pelos imigrantes – os mais pobres dos pobres. Enquanto nos últimos meses centenas de pessoas morriam afogadas no Mar Mediterrâneo, vozes começaram a se fazer ouvir em quase todos os países europeus, 26 anos depois da queda da Cortina de Ferro, que representava o isolamento, as deportações em massa e a construção de novos muros e divisões. Em toda a Europa, a xenofobia e o racismo escancarado crescem exponencialmente. Os nacionalistas e até mesmo os partidos de extrema direita vêm ganhando terreno.

Progressão. Esse é apenas o começo da crise, porque as condições que incitam as pessoas a fugir de suas pátrias ainda continuarão a se agravar. E a União Europeia, cujos membros têm em sua maioria os sistemas previdenciários maiores e mais bem organizados do mundo, parece oprimida por essa situação em termos políticos, morais e administrativos.

Essa paralisia cria um risco considerável para a UE. Ninguém acredita seriamente que cada país – particularmente Itália e Grécia, os dois países mais afetados – possa suportar as dificuldades representadas no longo prazo pela enorme onda migratória que se dirige para as suas plagas. Muitos integrantes do bloco, no entanto, têm rejeitado uma iniciativa europeia comum – e essa atitude ameaça acelerar o desgaste da solidariedade dentro da própria UE, reforçando a atual tendência à sua desintegração.

Origens. Há três causas distintas para a atual onda de migração rumo à Europa: a doença econômica persistente dos Bálcãs ocidentais, a agitação no Oriente Médio – especificamente no Irã, na Síria, no Afeganistão e no Paquistão), as guerras civis e os conflitos da África – às quais se somou rapidamente a intensificação ou expansão da guerra no leste da Ucrânia como uma quarta causa da fuga.

Em outras palavras, toda a migração com que a Europa se defronta se origina nas graves crises que ocorrem em seu entorno. No entanto, a UE pouco pode fazer para resolver cada um desses problemas. Claramente, ela deverá reforçar de modo substancial a política externa e de segurança comum, que inclui a política europeia de vizinhança, se pretender tratar de maneira mais efetiva das causas da migração desordenada em seu nascedouro. 

Talvez a única falha mais patente do que a recusa dos países membros a apoiar estas reformas seja o fato de eles não terem agido, principalmente porque isto criou um vazio de legitimidade que os populistas xenofóbicos agora estão preenchendo.

Considerando sua debilidade em matéria de política externa, a Europa terá um impacto menor sobre as guerras e os conflitos que devastam a África e o Oriente Médio – embora sua influência, ainda que pequena, devesse ser utilizada e ampliada. Nos Bálcãs ocidentais, no entanto, a história é diferente. 

A Croácia já é um país membro da UE, enquanto Montenegro e Sérvia começaram as negociações para a sua integração, Albânia e Macedônia são candidatas ao acesso e Bósnia e Herzegovina e Kosovo são candidatos potenciais. Aqui, a influência possível do bloco é considerável.

O motivo pelo qual a UE não se envolveu mais profundamente na região dos Bálcãs ocidentais – onde poderia fazer toda a diferença apoiando a modernização administrativa e econômica e os projetos de infraestrutura a fim de ligar a região aos centros industriais da União – é o segredo da Comissão Europeia e dos países membros. O resultado absurdo, entretanto, é que os cidadãos dos países candidatos à UE estão sujeitos aos procedimentos de asilo, porque não existe para eles nenhuma possibilidade de imigração legal no bloco.

Um caso específico é o dos roma, a grande minoria dos Bálcãs ocidentais cujos membros frequentemente sofrem uma perversa discriminação. Esse é um problema pan-europeu. Os roma sofreram de maneira desproporcional depois do colapso do comunismo em 1989, quando trabalharam em geral na indústria em funções para as quais não era exigida especialização. Na realidade, muitos deles – os atuais ou futuros cidadãos europeus – voltaram a cair na mais profunda pobreza. 

Esforços. A persistente discriminação contra essas populações constitui um escândalo que pode ser observado em toda a Europa, e os membros do bloco europeu, juntamente com os candidatos ao ingresso no bloco, precisam procurar solucionar essa questão.

A crise dos refugiados destes últimos meses destaca outra questão muito maior: o problema estrutural da demografia europeia. Ocorre que, enquanto nas populações europeias o número de idosos aumenta, as populações em si encolhem. Assim, o continente precisa urgentemente da força de trabalho trazida pela imigração. Entretanto, muitos europeus se opõem energicamente à chegada dos imigrantes, porque ela implica uma mudança social.

Com o tempo, os responsáveis pelas decisões estratégicas terão de explicar aos seus povos que não devem esperar a prosperidade econômica e um bom sistema de previdência social, mas uma população na qual os aposentados representarão um pesado fardo para os cidadão economicamente ativos. 

A força de trabalho da Europa precisa crescer e essa é apenas uma das razões pelas quais os europeus devem parar de tratar os migrantes como uma ameaça e começar a vê-los como uma oportunidade. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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