Europeus provocam impasse para a conferência sobre racismo

Mais de 500 anos após a chegada de Cristóvão Colombo às Américas, os europeus continuam rejeitando o reconhecimento dos efeitos negativos do colonialismo e da escravidão. A recusa está provocando um inesperado impasse nas negociações para a Conferência Mundial contra o Racismo, que ocorrerá no final do mês em Durban, na África do Sul. A maioria dos países, inclusive o Brasil, defende que os termos "escravidão" e "colonialismo" façam parte da declaração final. Alguns,como os africanos, pedem até mesmo compensações financeiras às ex-colônias. Mas todas as vezes que qualquer menção ao passado é feita na declaração, os países europeus têm bloqueado os debates.Para tentar solucionar o impasse, os países decidiram criar o "Subgrupo sobre Temas do Passado", que será presidido a partir desta quinta-feira pelo Brasil. Um dos objetivos do grupo será definir de que forma um reconhecimento por parte da Europa ou mesmo o pedido de desculpas pelos atos passados, como querem alguns, será feito. Para um diplomata brasileiro, a União Européia está sendo mais inflexível que os países muçulmanos. "Será um absurdo se, em uma reunião que trata do combate ao racismo, o tema da escravidão não for incluído", afirma a vice-governadora do Rio de Janeiro, Benedita da Silva, que faz parte da delegação brasileira. "Algum europeu já se perguntou como é que ocorreu que eu falo português, e não o ioruba?", ironizou Benedita.Na avaliação da vice-governadora, a situação do racismo não é complexa apenas entre os países. "No próprio Brasil, a situação é preocupante e é um mito a história de que vivemos em uma democracia racial", afirma Benedita, ressaltando que, mesmo como vice-governadora, segue sendo vítima do racismo. Segundo ela, o Brasil é um dos únicos países que conta, em sua delegação para a Conferência de Durban, com apenas 30% de membros do governo, enquanto os restantes são representantes da sociedade civil. "Isso está resultando em uma posição concertada entre governo e sociedade civil", afirma Benedita, explicando que sua presença na delegação brasileira ocorre independentemente de fazer parte do PT. Segundo Benedita, o número oficial do IBGE de 44% da população negra e parda não corresponde à realidade, já que não se trata de uma pesquisa biológica, mas feita a partir do censo e, portanto, das respostas que são dadas pela população. "A maioria da população brasileira não é branca. O que ocorre é uma tentativa de branqueamento", disse. Para evitar que esse processo continue, Benedita defende a introdução do termo afro-descendentes para identificar a parcela da população que tem origens negras. Além do impasse sobre o colonialismo, hoje a organização não-governamental International Lesbian and Gay Association foi excluída da conferência. Mais uma vez uma delegação européia foi acusada pelo fato. A Suécia, que normalmente apóia o grupo de homossexuais, deixou a sala na hora da votação e o resultado foi 43 votos a favor, entre os quais o do Brasil, e 43 contra - o que acabou impedindo a participação da ONG.

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