Dmitry Kostyukov/The New York Times
Dmitry Kostyukov/The New York Times

Europeus ricos fogem para pequenas cidades e apavoram suas populações

Fuga repentina tornou ainda mais evidente a diferença entre ricos e pobres, principalmente na França, onde 3,4 milhões de pessoas ostentam uma segunda casa no interior do país – mais do que qualquer país da Europa 

Norimitsu Onishi e Constant Méheut / The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2020 | 15h08

ILHA DE NOIRMOUTIER, FRANÇA - Os moradores de Noirmoutier, pequena ilha na costa atlântica da França, assistiram com pavor e raiva às imagens de Paris. Quando começaram a circular rumores sobre um iminente bloqueio nacional para conter o coronavírus, hordas de parisienses ocuparam trens e estradas. Não havia dúvida sobre o destino deles.

"Irresponsáveis e egoístas”, disse Cyrille Vartanian, um dos seis médicos de Noirmoutier. O prefeito, Noël Faucher, tentou bloquear a única ponte que dá acesso ao continente, mas as autoridades nacionais disseram que a ação era ilegal. “Foi uma invasão. Não estávamos confinados”, disse Faucher.

Do dia para a noite, a população da ilha dobrou, chegando a 20 mil. Quase duas semanas após a quarentena nacional entrar em vigor, no dia 17, já são 70 casos suspeitos de coronavírus na ilha.

Na França – assim como em toda a Europa – os ricos estão levando os epicentros da crise para pequenas cidades, onde eles mantêm uma segunda residência, perto do mar ou das montanhas, onde ainda encontram uma conexão decente de wi-fi para manter o trabalho. Com eles, vai também o vírus, que sobrecarrega o sistema de saúde de cidades com poucos hospitais e médicos.

A fuga repentina tornou ainda mais evidente a diferença entre ricos e pobres, principalmente na França, onde 3,4 milhões de pessoas ostentam uma segunda casa no interior do país – mais do que qualquer país da Europa. 

Ao contrário dos ricaços, os trabalhadores europeus estão enfrentando semanas de quarentena em espaços apertados. Alguns foram demitidos, enquanto outros tiveram de continuar trabalhando, às vezes com proteção limitada, em empregos mal remunerados, como caixas de supermercado ou entregas que exigem contato com outras pessoas.

 

Os moradores de Noirmoutier contam que os parisienses, assim que chegaram à ilha, foram direto para a praia, organizaram piqueniques, fizeram kitesurf, corrida e ciclismo. A resposta não demorou: os locais começaram a enfiar a faca em pneus de carros com placas de Paris. “O comportamento deles é inaceitável”, afirma Frédéric Boucard, de 47 anos, criador de ostras. “É como se estivessem de férias.” Claude Gouraud, de 55 anos, também critica. “Deveríamos ter bloqueado a ponte semanas atrás.”

Na Itália, o fenômeno é parecido.  Na semana passada, Ruggero Razza, membro do conselho regional de saúde da Sicília, disse   que muitas das novas infecções estão sendo causadas por um  fluxo de quase 40 mil italianos  de outras regiões.

Entre os espanhóis, o fujão mais famoso foi o ex-premiê José María Aznar, que fez as malas e foi para sua casa de veraneio em Marbella, resort no Mediterrâneo, deixando Madri no mesmo dia em que a capital fechou escolas e universidades. A fuga de Anzar provocou irritação nas redes sociais e muitos pedidos para que o ex-premiê fosse trancafiado em casa. 

Na semana passada, na Grécia, o primeiro-ministro, Kyriakos Mitsotakis, anunciou um bloqueio de estradas depois que milhares de habitantes de grandes cidades ignoraram os apelos para ficar em casa e fugiram para aldeias e ilhas, que não têm a menor condição de lidar com a pandemia.

Imediatamente, autoridades de várias ilhas do Mar Egeu pediram ao governo para conter  a multidão. O governo da ilha de Milos descreveu o fluxo de fujões como "cavalos de Troia que poderiam espalhar o vírus na comunidade". / NYT

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.