Europeus se dividem sobre status do Hezbollah

UE debate qualificar de 'terrorista' grupo xiita libanês após ações na Bulgária e Chipre

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2013 | 02h04

A investigação de um atentado na Bulgária e o julgamento de um jovem no Chipre ampliaram, na semana passada, a pressão para que a União Europeia (UE) inclua o Hezbollah na sua lista oficial de "organizações terroristas". Uma decisão desse tipo está longe de ser meramente formal: o que for determinado em Bruxelas pode ter impacto decisivo sobre a estabilidade do Líbano e o crescente envolvimento do país na guerra civil da vizinha Síria.

Ao contrário dos EUA, a UE não enquadra na categoria de "terrorista" o grupo xiita, que - além da luta armada - mantém uma ampla rede de caridade e o quarto maior partido no Parlamento libanês, peça-chave na coalizão do primeiro-ministro Najib Mikati. Alguns países europeus - principalmente a antiga metrópole do Líbano, a França - calculam que perderão influência sobre a política de Beirute caso incluam o Hezbollah na lista.

No entanto, novos sinais de que a organização mantém em território europeu uma sofisticada rede de financiamento, inteligência e operações terroristas colocaram a posição francesa sob ataque dentro e fora da UE.

A procuradoria da Bulgária está prestes a concluir uma investigação sobre o atentado de julho contra turistas israelenses em um balneário do Mar Negro, o qual deixou seis mortos. Embora o dossiê dos investigadores ainda esteja submetido a segredo de Justiça, o governo de Sófia já anunciou que a facção xiita será acusada pelo massacre.

O inquérito búlgaro coincidiu com um julgamento, no Chipre, de um acusado de pertencer ao Hezbollah. Na quarta-feira, a audiência de um sueco-libanês de 24 anos em um tribunal da vila de Limassol levou a novas pistas sobre as ações do Hezbollah na Europa. O réu, que admitiu ser do grupo, foi detido uma semana antes do atentado na Bulgária ao tentar coletar informações sobre israelenses que visitavam a ilha - placas de ônibus de turismo e horários de voos vindos de Tel-Aviv.

Ele negou que estivesse planejando atentados, mas contou à corte que transportou encomendas e comprou chips de celulares para o Hezbollah na França, Holanda e Turquia, agindo sempre sob as ordens de um homem a quem conhecia apenas como "Ayman".

Se for classificado como "terrorista", o Hezbollah será proibido, por exemplo, de fazer operações financeiras em praticamente toda a Europa. "Essa questão já foi colocada várias vezes aos europeus diante de grupos como o palestino Hamas, militantes iranianos e outros", disse ao Estado Joseph Bahout, professor franco-libanês do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-po). "O problema é que, ao final, um rótulo desse tipo pode ser contraproducente. Muitos diplomatas europeus, por exemplo, arrependem-se hoje de ter incluído o Hamas na lista de organizações terroristas, pois isso lhes tirou poder sobre a questão palestina."

Entretanto, EUA, Israel e países europeus mais alinhados a Washington - como a Alemanha - vêm fazendo lobby para que a França mude de posição. Na quarta-feira, o ministro de Defesa Civil e ex-chefe do serviço interno de inteligência de Israel, Avi Dichter, visitou a capital francesa para tentar persuadir o governo de François Hollande. "Dizer que o Hezbollah não é terrorista equivale a afirmar que Paris não pertence à França", argumentou. No dia seguinte, o presidente israelense, Shimon Peres, reforçou que a UE "deve" alterar o status do grupo libanês.

Crise síria. Eyal Zisser, professor da Universidade de Tel-Aviv e especialista em Líbano e Síria, acredita ser "improvável" que os franceses mudem de posição. "Já houve outros episódios em que ficou claro que células do Hezbollah estavam agindo na Europa", lembra.

Tanto ele quanto Bahout apontam que o debate na Europa ocorre em um momento decisivo da história do Hezbollah. O grupo avança cada vez mais amarrado à guerra civil síria, lutando lado a lado com as forças do regime de Bashar Assad. Essa aliança tem corroído a imagem do Hezbollah no mundo árabe, onde antes a organização era vista como a campeã da "resistência" ao poder israelense - principalmente depois da guerra de 2006.

"De início, parecia que o envolvimento do Hezbollah na Síria seria limitado. Mas, surpreendentemente, ele parece disposto a ir até o fim em defesa de Assad", afirma o professor de Paris. Na quarta-feira, o Exército Sírio Livre, que luta contra o regime, prometeu bombardear posições do Hezbollah dentro do Líbano, caso o grupo continue a lutar ao lado de Assad. "É a receita para que a crise se torne não apenas síria, mas também libanesa", alerta Zissier.

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