AP Photo/Evan Vucci
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Europeus veem a saída de Obama com admiração e decepção

Popularidade de presidente americano está marcada pela decepção com seus fracassos e pela melancolia resultante do otimismo que representava em 2008

Steven Erlanger, The New York Times, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2016 | 11h58

BERLIM - Quando o então candidato democrata à presidência dos EUA, Barack Obama, ao lado da Coluna da Vitória em Berlim, em 2008, defendeu sua visão de esperança e mudança, estava cercado por 200 mil europeus ansiosos por lhe dar uma oportunidade. Eles estavam encantados com sua juventude, herança multirracial e otimismo (a partir do slogan de campanha "Sim, nós podemos"). Viam-no como alguém mais parecido com eles mesmos, uma mudança radical da arrogância de George W. Bush e dos EUA percebida com a Guerra do Iraque, à qual a Alemanha e a França sempre se opuseram.

Entretanto, mesmo no momento em que sai com índices de aprovação crescentes nos EUA, seu legado na Europa é muito menos definitivo, como mostram entrevistas com uma ampla variedade de europeus comuns e analistas de política externa. Sua popularidade está marcada pela decepção com os fracassos de Obama e pela melancolia resultante do otimismo que representava.

Além disso, há a dura realidade dos problemas que a Europa enfrenta – uma Rússia mais agressiva e uma incessante crise migratória –, mais complicados do que quando Obama cativou a multidão em Berlim, há oito anos. E alguns veem sua prudência e passividade como uma das causas para ambos.

Em uma visita à Coluna da Vitória, Moni Schneid, de Stuttgart, disse que continua a ser sua fã. "Foi muito bom que um negro tenha conseguido ser eleito presidente e tenho muito respeito pelo que ele alcançou, mas nenhum líder pode conseguir o que quer. Há muitos obstáculos no caminho. E por todos os cantos há alguém dizendo 'Não, nós não podemos'."

Dieter Boesche, 71 anos, disse que havia se surpreendido pela efusão de esperança com que Obama foi recebido, por ter ganhado, e aceitado, o Nobel da Paz com base em expectativas, e não realizações. "Sinto pena dele. Estou desapontado. Os labirintos políticos evitaram que ele realizasse suas esperanças e talvez as nossas. Isso ficou mais claro para nós agora na campanha presidencial dos EUA", disse Boesche.

Nascido em Hamburgo quando os aliados derrotaram os nazistas, em 1945, Boesche disse: "Os americanos fizeram a Alemanha de hoje com sua ajuda. É por isso que é tão decepcionante que não possamos esperar nada dos EUA".

Claro que Obama cometeu erros, disseram os entrevistados, especialmente no Oriente Médio e nas relações com seu colega russo, Vladimir Putin. E muitos não gostaram que a prisão de Guantánamo permaneceu fechada, diferente do que ele havia prometido. Mas também elogiaram o acordo nuclear com o Irã, a reaproximação com Cuba e a relutância em se envolver em guerras.

Suas opiniões se refletem nas pesquisas feitas em 10 países da União Europeia, realizadas no primeiro semestre pelo Centro de Pesquisa Pew. Elas indicam que Obama restaurou sentimentos mais positivos entre os europeus após Bush, que era extremamente impopular.

Norbert Roettgen, presidente do comitê de política externa do Bundestag, disse que, para os europeus, o legado do Obama permaneceria basicamente positivo. Ele observou as realizações do presidente em relação ao Irã e a Cuba, além do programa nacional de saúde. "Aos olhos dos europeus e alemães, ele é um lembrete de que ainda podemos admirar os EUA e que o país desempenha um papel de liderança no mundo", disse.

Vários analistas europeus de política externa têm uma visão mais negativa. Eles veem uma perda de credibilidade dos EUA no mundo, com Rússia e China parecendo exercer mais influência e rejeitando interesses e exigências americanos.

George Robertson, ex-secretário britânico da defesa e secretário-geral da OTAN, uniu seu elogio ao líder americano com algumas críticas mais duras. "Obama trouxe uma sensação bem-vinda de calma e estabilidade para a relação com a Europa após a turbulência da era Bush, mas poderia ter sido mais duro com a Rússia, porque manter Putin sob controle era importante (...). Em vez disso, Obama permitiu que Putin voltasse ao cenário mundial e testasse a determinação do Ocidente na Ucrânia e na Síria, o que tem sido um desastre.”

Como muitos, Robertson disse que o fracasso de Obama em prosseguir com a "linha vermelha" de 2013, sobre o uso de armas químicas pela Síria, e iniciar a ação militar prometida havia ferido sua credibilidade e a dos EUA com Putin, os árabes sunitas e o líder israelense, Binyamin Netanyahu.

Obama viu a decisão de trabalhar diplomaticamente com a Rússia para remover a maioria das armas químicas sírias como um exercício de contenção responsável. Robertson disse que a opção não foi vista dessa forma. "O presidente dos EUA nunca deve ser um espectador. O mundo precisa de liderança. Claro que a intervenção tem custos, mas a cautela também tem seu preço e consequência pode ser cruel", insistiu.

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