Eurotúnel vira "túnel da discórdia"

O túnel sob o Canal da Mancha, que deveria contribuir para aproximar ingleses e franceses, está se transformando num novo elemento de discórdia entre esses dois vizinhos cujas relações têm sido tradicionalmente marcadas por sentimentos de amor e ódio. Londres acusa Paris de estar facilitando a imigração clandestina por ter instalado um centro de refugiados em Sangatte, no Pas de Calais, a poucas centenas de metros da boca do túnel por onde transita o Eurostar, trem de passageiros a grande velocidade (TGV), e os trens de transporte de caminhões e automóveis para as ilhas britânicas. Desde a abertura do túnel sob a Mancha, em 1999, por lá já passaram mais de 40 mil migrantes, e diariamente esse centro administrado pela Cruz Vermelha é ocupado por 1.600 pessoas - mais do que o dobro de sua capacidade, 700 pessoas. Crianças, homens e mulheres de várias nacionalidades, como curdos, iraquianos, afegãos e turcos, sonham com o eldorado britânico e procuram brechas no sistema de segurança do grupo Eurotúnel que lhes permita chegar ao outro lado do canal, onde os controles são bem menos rigorosos que na França. Na Grã-Bretanha não existe, por exemplo, controle de identidade, o que facilita também a recepção dos clandestinos por uma estrutura constituída por comunidades formadas por antigos refugiados já instalados no país. Os ministros do Interior dos dois países devem reunir-se na próxima quarta-feira, buscando coordenar suas políticas de imigração.Jornais britânicos acusam o governo de Paris de agir com "excessiva flexibilidade", enquanto os franceses responsabilizam "o governo insular" por não haver mais harmonização da política de imigração européia. Jornais como o tablóide britânico Sun exigem que o governo de Londres mostre mais firmeza ao tratar desse tema com a França, exagerando nos títulos: "Estamos cercados", ou "Suspendam a invasão". Os refugiados evitam pedir asilo na França, pois a legislação prevê que o pedido só pode ser endereçado a um único país da União Européia. Eles esperam chegar à Grã-Bretanha e regularizar sua situação neste país, onde controlam razoavelmente o idioma. Em Londres, as exigências para um primeiro trabalho não são tão rigorosas quanto as da França, o que facilita a integração. As condições de recepção também são mais atraentes do que na França. Os adultos maiores de 25 anos têm direito a uma ajuda de 10 libras (US$ 17) por semana, além de uma semana de hotel. Além disso, todos os refugiados recebem cupons que dão direito a alimentação e roupas e são protegidos, em caso de problema de saúde, por um sistema universal que beneficia todo indivíduo em território britânico. Neste verão o problema se agravou, pois os refugiados decidiram lançar verdadeiras operações de comandos, organizando-se em grupos de 20 e até de 100 pessoas para tentar atravessar a pé o túnel, expondo-se a muitos perigos. Cinco pessoas perderam a vida nos últimos meses, atropeladas nas estradas vicinais da região ou sufocadas no interior de caminhões e vagões de trem. Mesmo quando a tentativa de travessia malogra, eles voltam para o campo de refugiados de Sangatte, do lado francês, e no dia seguinte repetem a tentativa. As autoridades inglesas decidiram multar a empresa Eurostar em US$ 300 por clandestino descoberto no interior de um TGV na estação londrina de Waterloo.

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