Evasivas, hesitações e fracassos dos EUA

Mais crucial do que adotar a política correta é ter uma política e ater-se a ela

Jonathan Tepperman*,

18 de agosto de 2013 | 02h10

Nas últimas semanas, o governo russo realizou um processo de fachada para silenciar um conhecido ativista, a junta do Egito massacrou manifestantes, a Turquia reprimiu com violência uma manifestação pacífica e os governantes do Camboja e do Zimbábue fraudaram as eleições.

Em cada um dos casos, o governo de Barack Obama limitou-se a murmurar objeções. A aparente indiferença enfureceu organizações de defesa dos direitos humanos, consternadas com a discrepância entre o discurso empolgante do presidente e sua cotidiana falta de ação.

Pessoas mais experientes, porém, aplaudiram o sangue frio de Obama, afirmando que a preocupação com essas questões o distrairia da defesa dos reais interesses dos EUA. Acho difícil estabelecer distinções entre tais argumentos. Ambas as afirmações são feitas por pessoas inteligentes e com total convicção. E elas pretendem apelar para diferentes partes do corpo: coração e cabeça. Entretanto, os colunistas não podem se dar ao luxo de ficar em cima do muro. Os que ficam, não merecem ser lidos.

Portanto, como todo especialista cuidadoso em matéria de política, fui à procura de dados. A ideia era usar as evidências, não o sentimento, para solucionar o debate. Infelizmente, descobri que não há pesquisas que permitam concluir que pressionar regimes a se democratizar ou a respeitar os direitos humanos funciona.

Parece inacreditável, mas o problema é que são inúmeras as variáveis envolvidas. São tantos os fatores que determinam o comportamento de um Estado que é quase impossível dizer quais são decisivos. Embora não haja pesquisas conclusivas, há evidências factuais que ajudam os estudiosos a formular um guia para determinar quando a pressão pode ter o efeito desejado.

O primeiro ponto enfatizado é que uma linguagem forte não resolve. A retórica da condenação usada por Washington, como a dirigida à União Soviética na Guerra Fria, pode servir de conforto para os dissidentes locais. E, às vezes, ela consegue mudar o mau comportamento de um regime no curto prazo, talvez obtendo a libertação de alguns presos políticos. Mas raramente as mudanças são duradouras ou profundas.

As ameaças são outra questão. Segundo Larry Diamond, professor de Stanford, elas podem se referir à redução ou suspensão da ajuda, ao esfriamento das relações ou à limitação da cooperação As medidas podem funcionar, desde que sejam atendidas várias condições.

Em primeiro lugar, como disse Nicolas van de Valle, professor de Cornell, o país visado deve ser pequeno e pobre para que a perda da ajuda cause um problema sério. Foi o caso de Níger e Gâmbia: diante de uma persistente pressão ocidental, depois de golpes, ambos cederam e restauraram o governo civil.

Diamond afirma que é útil ter vários tipos de relacionamento com o regime em questão. Estreitos vínculos militares são úteis, como os EUA concluíram no caso das Filipinas e da Coreia do Sul, nos anos 80. Mianmar, que se convenceu de que teria de se abrir, também mostra o valor de incentivos.

No entanto, analistas destacam que é possível atender a todas essas condições e, mesmo assim, fracassar e não obter mudança. Se o regime está disposto a resistir ao sofrimento, em vez de ceder (o Zimbábue), ou se é rico (China, Rússia e Venezuela), ou se sabe que os EUA precisam dele (Arábia Saudita), nem as formas mais duras de incentivo conseguirão resultado.

Em outras palavras, não é possível garantir o sucesso. No entanto, pode-se garantir o fracasso, quando os EUA usam um discurso evasivo. Voltamos assim a Obama. Seja por reticência, ambivalência, cálculo ou dificuldade de fazer política em Washington, a resposta do governo aos que violam os direitos humanos tem sido confusa.

No caso do Egito, Washington apoiou a ditadura de Hosni Mubarak até que ela não teve como sobreviver. Depois, mudou o curso e apoiou o sucessor eleito, Mohamed Morsi. Então, recusou-se a criticá-lo abertamente quando o comportamento dele tornou-se autoritário. Quando os velhos companheiros de Mubarak descartaram Morsi, Obama mudou de novo o curso, recusando-se a criticar ambos. Para aumentar a confusão, os senadores John McCain e Lindsay Graham visitaram o Cairo para pressionar os generais a restaurar o controle civil, enquanto o secretário de Estado John Kerry parecia defendê-los.

Como resultado, agora, todos no Egito odeiam os EUA, porque estão convencidos de que eles apoiam seus inimigos. O que sugere que mais importante do que implementar a política correta é ter uma política e ater-se a ela. Tentando jogar de ambos os lados, Obama fica com o pior dos mundos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA  * É colunista

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