Adriana Carranca/Estadão<br>
Adriana Carranca/Estadão

Evelyn Chumbow, traficada para os EUA pelo próprio tio

Aos 9 anos, menina foi vendida para família camaronesa que morava no estado americano de Maryland por US$ 2 mil; foi mantida em cativeiro por 7 anos

Adriana Carranca, Enviada Especial, Londres, O Estado de S. Paulo

23 Novembro 2014 | 05h00


Aos 9 anos, Evelyn Chumbow foi vendida por um tio a traficantes por US$ 2 mil. À família, vulnerável e pobre, o intermediário prometeu que Evelyn seria adotada. Ele convenceu a mãe, sozinha e grávida, de que a adoção seria melhor para o futuro da menina. Assim, garantiu também que ela nunca tentasse procurar a filha. 

Os traficantes obtiveram documentos falsos para Evelyn. Ela foi levada para Londres e, de lá, negociada para uma família de Camarões - mesma nacionalidade que a sua -, que vivia no estado americano de Maryland. Evelyn entrou nos EUA na companhia de um homem. Ela ainda era uma criança e estava assustada demais para guardar memórias detalhadas da viagem, mas se lembra de não ter tido problemas quando passaram pela imigração. 

Evelyn foi mantida em cativeiro pelo casal que a recebeu em Maryland e obrigada a fazer todo o trabalho doméstico, entre outras obrigações sobre as quais não gosta de falar. "Ainda não fiz as pazes com essa parte do meu passado", disse ao Estado, respondendo à pergunta sobre ter sido vítima de abuso sexual. Ela cuidava de duas crianças pequenas, que frequentemente assistiam enquanto a mãe a espancava. "Eles riam. Ela os entretinha com isso", disse Evelyn, que era mantida em um pequeno quarto, onde dormia no chão. Ela raramente deixava a casa - nunca sem a companhia do casal. 

Pelo menos 5,5 milhões de crianças estão escravizadas hoje no mundo. É uma tragédia diretamente ligada à pobreza e à vulnerabilidade de famílias como a de Evelyn, da zona rural de Camarões. Muitas das crianças traficadas não são roubadas. Suas famílias são convencidas a entregar os filhos por traficantes disfarçados de assistentes sociais ou agentes de adoção. Muitas vezes os traficantes têm como intermediário alguém conhecido e de confiança das próprias famílias.

"Eu pensei que nunca sairia de lá, a não ser que estivesse morta", diz Evelyn. Em cativeiro, ela perdeu a noção do tempo. Só mais tarde, quando foi libertada, deu-se conta de ter sido escravizada por 7 anos. Perto do fim deste período, outra menina, também traficada de Camarões, juntou-se a ela. As duas começaram a planejar a fuga. Uma noite, conseguiram escapar para a igreja do bairro. O padre as manteve escondidas até serem resgatadas pelas autoridades. 

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O mundo precisa saber que milhões de crianças continuam escravizadas e isso não é justo
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Evelyn retomou os estudos - ela mal sabia ler e escrever quando foi traficada e nunca tinha ido para a escola até ser salva. Hoje, ela estuda trabalho humanitário e segurança doméstica na Universidade de Maryland. "Houve um momento que eu pensava em desistir de tudo. Você imagina o que é para uma menina descobrir de repente que foi vendida pelo tio por US$ 2 mil. Ele acabou com a minha vida", diz. 

No meio do processo de recuperação, Evelyn largou a escola e começou a trabalhar. Queria comprar uma passagem para Camarões. "Eu precisava ir, eu tinha que buscar respostas, não conseguia mais viver sem pensar nisso. Eu queria saber por que eles fizeram aquilo comigo." O tio pediu-lhe perdão. "Eu disse que perdoava, mas leva muito tempo para alguém se recuperar do trauma como o que eu vivi", explica.

Evelyn ainda tem pesadelos. Sonha que ainda está no cativeiro e as imagens aparecem como flashbacks. "Eu sinto como se estivesse vivendo tudo de novo. Todas as noites sonho com os traficantes, penso que eles virão para matar meu filho", diz Evelyn, que está casada e é mãe de um menino de 9 meses. 

Ela ainda chora quando descreve o que viveu. "Foi um milagre eu conseguir escapar. Eu fui colocada em um abrigo, mas muitas pessoas quando conseguem fugir não têm para onde ir e acabam de novo nas mãos de traficantes." 

Evelyn, que criou uma rede na Internet - a National Survivor Network -  onde sobreviventes de tráfico e escravidão podem se comunicar e pedir ajuda. O casal que a manteve em cativeiro foi condenado a 17 anos de prisão.  "Mas o mundo precisa saber que milhões de crianças continuam escravizadas e isso não é justo. Não foi justo o que fizeram comigo."

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