REUTERS/Tim Wimborne
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Evento com burkini na França causa polêmica

Associação quer alugar parque aquático para dia de lazer de muçulmanas, mas políticos dizem que iniciativa contrasta com cultura libertária do país

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

05 Agosto 2016 | 21h44

A abertura de um parque aquático exclusivamente para mulheres muçulmanas e crianças – com homens proibidos –, está causando polêmica na França em relação ao suposto fechamento das comunidades islâmicas em relação ao restante da sociedade. 

O evento, previsto para 17 de setembro, ainda durante o verão europeu, foi organizado pela associação Smile 13, sigla que significa Irmãs Marselhesas Iniciadoras de Lazer e Ajuda Mútua – uma entidade que promove o lazer de mulheres muçulmanas na região de Marselha, no litoral mediterrâneo. 

A iniciativa contrasta com a cultura da França que aderiu aos princípios da liberação feminina e da igualdade de gêneros, a ponto de popularizar o topless nos anos 70 – uma prática que chegou a ter 76% de apoio da opinião pública e foi adotado por mais de 50% das mulheres em Saint-Tropez em 1975. 

Alheia à reputação libertária da França, a instituição alugou um parque aquático, o Speedwater Park, para realização de um dia de lazer reservado às mulheres muçulmanas. Nos cartazes de propaganda, a recomendação é a de que a frequentadora use um maiô com calção, um “burkini” – um “biquíni” integral que não deixa nenhuma parte do corpo à mostra – com exceção do rosto, das mãos e dos pés –, ou um “jilbeb de bain”, um traje de banho mais largo, que não permite que as formas do corpo feminino sejam vistas.

“Contamos com vocês para respeitar a Awra (toda parte do corpo humano deve ser escondida por pudor) e logo não vir em biquíni de duas peças (as partes devem ser escondidas do peito aos joelhos)”, diz o cartaz em suas instruções. “O mínimo é um maiô de uma peça com uma canga ou short.”

Como o parque Speedwater é uma instituição privada, que seria alugada por € 15 mil pelo dia de banho exclusivo para a associação, ainda há possibilidade de que o evento se realize.

Mas, inicialmente previsto para 10 de setembro, ele já foi adiado em uma semana, e a pressão de líderes comunitários é grande para que o evento não ocorra. 

Em meio ao auge do verão na França e às férias de parte dos dirigentes políticos mais importantes, a iniciativa da Smile 13 desencadeou uma polêmica nacional. Políticos de todos os partidos se insurgiram contra a iniciativa, que pode ser cancelada nas próximas horas. 

Ao menos essa é a intenção do prefeito da cidade de Pennes-Mirabeau, onde se localiza o parque Speedwater. Michel Amiel pretende publicar um decreto proibindo o evento. O argumento é o de “risco à ordem pública”. Em entrevista ao jornal Le Parisien, Amiel disse estar “chocado e furioso”.

“É uma provação, comunitarismo puro e simples”, reclamou o prefeito, que sabe da fragilidade de sua justificativa legal, mas disse estar disposto a ir ao Tribunal Administrativo para impedir o banho de “burkini”. 

Diante da polêmica crescente, a administração do parque afirma que o evento é “hipotético”, porque ainda não está no calendário por falta de confirmação da reserva. Já a associação Smile 13 decidiu ontem não responder aos pedidos de entrevistas, até mesmo do Estado.

Em sua última declaração à imprensa, Melisa Thivet, responsável pela associação, afirmou que a entidade não faz proselitismo político ou religioso. “Não vejo pelo que poderiam nos recriminar, além do fato de estarmos praticando nossa religião”, alegou em entrevista ao site de informação Le Lab, na qual argumentou: “Estamos em um país secular e cada um deve poder praticar seu culto como bem entender”. 

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