Wilton Junior/AE
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Evento debate efeito de turbulências para democracias 

Conferência discutirá transformações políticas em curso na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina 

Renata Tranches , O Estado de S. Paulo

14 de setembro de 2016 | 05h00

Uma realidade com a qual os países da América Latina estavam habituados a conviver, de instabilidade política e regimes democráticos em crise, passou a ser experimentada na Europa e nos Estados Unidos, acostumados à estabilidade e ao funcionamento pleno de suas instituições democráticas. 

O cenário é consequência de uma turbulência política pela qual passam essas três regiões, tema que será debatido hoje na conferência Turbulent Democracies and the International System: Perspectives from Europe, Latin American and The United States, promovido pela Fundação Fernando Henrique Cardoso e o German Marshall Fund of the United States. 

A conferência reunirá renomados analistas, observadores, diplomatas, entre outros, que discutirão esse contexto e sua potencial influência para o curso das democracias e para “uma ampla transformação geopolítica” do mundo. 

“Temos uma crise da democracia do século 20, do sistema político partidário, das agendas políticas, que são altamente preocupantes. Ela tem até mesmo repercussão em outras instâncias”, afirmou ao Estado um dos mediadores do evento, o sociólogo Bernardo Sorj, diretor do Centro Edelstein (Rio). 

As discussões serão divididas em três painéis que abordarão separadamente a dinâmica nos EUA, na Europa e na América Latina, focando também nas consequências para a segurança global e para os interesses econômicos. Um quarto painel tratará da questão mais amplamente, com um olhar sobre possíveis transformações para a geopolítica, “com particular ênfases no papel das democracias no sistema internacional”, afirma a apresentação do evento. 

Sorj explica que as três regiões experimentam situação de instabilidade política similares, que infelizmente a América Latina já estava “acostumada a conviver”. “Essa era uma marca registrada da região”, diz. 

Segundo o sociólogo, tanto EUA como Europa estão mostrando que há uma disfunção em seus sistemas e partidos políticos. “A Europa assiste à ascensão de partidos nacionalistas xenofóbicos e à fragmentação partidária, colocando em xeque a dominação de partidos tradicionais”, explica Sorj. 

Nos EUA, ocorre uma situação similar. “Por um lado, do lado (Donald) Trump, há um discurso nacionalista xenofóbico, contra o livre-comércio, que não está de acordo com a tradição do Partido Republicano. Do outro, do Partido Democrata, também há um discurso que coloca em xeque o establishment da legenda.” 

Em geral, o que vemos hoje na Europa e nos EUA, afirma Sorj, é uma descrença nas instituições democráticas tradicionais de trabalharem em uma agenda que não vá contra a maioria da população. “Fenômenos que estávamos acostumados a considerar nossos (América Latina)”, disse. 

Como consequência imediata, segundo o sociólogo, o que se espera é um “fechamento” das negociações e de acordos de tratados de livre-comércio. “Por exemplo, o Mercosul sempre se inspirou na UE, mas o bloco hoje está em crise”, afirma, lembrando que isso ocorre em um momento de várias mudanças políticas na América Latina. 

“Possivelmente, (as negociações entre os blocos) se prejudicarão. É paradoxal, porque nesse momento, na Argentina, com a eleição de (Mauricio) Macri, e no Brasil, com a ascensão de (Michel) Temer, a tendência era de se apostar na abertura comercial. Mas não temos certeza de que do outro lado teremos a receptividade que gostaríamos de ter.” 

QUEM PARTICIPA 

Bernardo Sorj 

Sociólogo, diretor do Centro Edelstein (Rio) 

Christian Leffler

Vice-chanceler da UE

 

Jorge G. Castañeda 

Co-presidente do Conselho  

Estratégico Franco-Mexicano e ex-candidato à presidência 

 

José Botafogo Gonçalves

Ex-embaixador do Brasil na Argentina e vice-presidente  do Cebri (Rio)

Juan Gabriel Tokaltlian

Sociólogo, professor da Universidad Di Tella (Argentina) 

 

Kori Schake

Ex-diretora de Defesa Estratégica e Requisitos no Conselho de Segurança Nacional (EUA) 

Mathew J. Burrows

Diretor de Strategic Foresight Initiative do Atlantic Council

Michael Leigh 

Conselheiro do German Marshall Fund 

Rubens Barbosa

Ex-embaixador do Brasil nos EUA 

Sérgio Fausto

Superintendente da Fundação Fernando Henrique Cardoso 

Tim Ridout 

Especialista do German Marshall Fund 

William Mclhenny 

Membro do Conselho de  Planejamento Político do  Departamento de Estado (EUA) 

 

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