Eventual conflito teria muçulmanos treinados pelo EI

Provocações levaram sérvios a erguer um muro numa cidade para separá-los dos albaneses; a barreira foi destruída

Jamil Chade, Enviado Especial / Belgrado, Sérvia, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2017 | 05h00

BELGRADO - Em dezembro, sérvios da cidade Mitrovica, no Kosovo, ergueram um muro como separação dos albaneses, que ocupam o sul da localidade. Depois de muito debate, os dois lados aceitaram destruir a barreira, não sem antes aprofundar as agressões.

Em 9 de janeiro, o líder da região sérvia da Bósnia, Milorad Dodik, promoveu um desfile para marcar a identidade “nacional”, enfurecendo muçulmanos e croatas. Em Montenegro, o ex-primeiro-ministro Milan Dukanovic não hesitou em acusar a Rússia de “influência indevida” nas eleições em 2016, abrindo uma fase de detenções de líderes da oposição.


Para o ex-analista da NSA John Schindler, o risco de uma guerra no Kosovo está também relacionado com o comportamento que combatentes muçulmanos adotariam. “Centenas de muçulmanos do Kosovo aderiram ao Estado Islâmico na Síria e, na condição de jihadistas veteranos, estão de volta à casa bem armados”, alertou, numa coluna publicada no Observer.

O ex-analista não deixa de apontar para os limites do acordo de Dayton, que colocou um fim à guerra da Bósnia nos anos 90. Segundo ele, o tratado costurado por Bill Clinton “nunca teve como objetivo ser uma solução de longo prazo” e hoje estaria “fazendo água”.

As eleições gerais na Macedônia durante o Natal também não ajudaram a resolver uma crise política que começou em 2015, quando o governo local se recusou a aderir às sanções ocidentais contra Moscou.

Para analistas e políticos locais, sem uma presença dos EUA na região, ninguém garante que os Bálcãs evitem um novo confronto. “Se Trump desistir dos Bálcãs, não acreditamos que os europeus lutarão sem o apoio dos EUA”, afirmou. Marko Jaksic, deputado do Kosovo no Parlamento sérvio disse que “se esse for o cenário, mais cedo ou mais tarde o Kosovo voltará aos braços da Sérvia”.

Denis MacShane, ex-responsável do governo britânico pelos Bálcãs entre 2001 e 2005, publicou em uma coluna no jornal The Independent que “se Putin pedir a Trump um favor ao dar apoio à Sérvia, os Bálcãs correm o risco de se encontrar em um novo confronto aberto”.

Ainda durante a campanha nos EUA, o líder sérvio radical Vojislav Seselj organizou um ato pró-Trump durante uma visita de Joe Biden a Belgrado. Quando Trump venceu a eleição, Seselj interrompeu uma reunião do Parlamento sérvio para tocar uma canção que havia sido composta por um sérvio em Milwaukee.

A letra dizia que Putin e Trump passariam a ser “co-imperadores” do mundo e o americano deportaria todos os muçulmanos dos EUA.

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