Evitando uma nova guerra fria

Relação entre Estados Unidos e China deve se deteriorar caso o entendimento histórico mútuo não se amplie

Henry A. Kissinger, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2011 | 00h00

A próxima cúpula entre os presidentes dos EUA e da China deverá se realizar mesmo que esteja havendo progresso na solução de várias questões em pauta e, provavelmente, produzirá um comunicado positivo. No entanto, os dois líderes defrontam-se com a opinião das elites de seus respectivos países, que enfatizam o conflito e não a cooperação.

A maioria dos chineses fora do governo, e mesmo dentro do governo, parece convencida de que os EUA querem estrangular a China freando sua ascensão. Os estrategistas americanos chamam a atenção para o crescente avanço econômico da China em todo o globo e para a capacidade cada vez maior de suas forças militares.

Será preciso muito cuidado para que as profecias de ambas partes não acabem se realizando. A natureza da globalização e o alcance da moderna tecnologia obrigam os EUA e a China a interagir no plano mundial. Uma guerra fria entre os dois países obrigaria as demais nações a escolher um dos lados, levando as disputas à política interna de todas as regiões, no momento em que questões como a proliferação nuclear, o meio ambiente, a energia e o clima exigem uma solução global abrangente.

O conflito não é inerente à ascensão de uma nação. Os EUA do século 20 são um exemplo de um país que chegou à eminência sem conflito com os países dominantes. Tampouco o conflito germano-britânico tantas vezes citado foi inevitável. Políticas inconsequentes e provocadoras acabaram transformando a diplomacia europeia em um jogo em que ninguém ganha nem perde.

As relações sino-americanas não precisarão tomar esse rumo. Os países cooperam na maioria dos problemas contemporâneos; o que lhes falta é um conceito abrangente para o diálogo. Durante a Guerra Fria, o elo foi proporcionado por um adversário comum. A multiplicidade de novas tarefas com que se defronta o mundo globalizado às voltas com uma revolução tecnológica e econômica não criou conceitos comuns.

Não é uma questão simples, pois implica na subordinação de aspirações nacionais à visão de uma ordem global. Nem os EUA nem a China têm experiência nessa tarefa. Cada um presume que seus valores nacionais sejam os únicos, aos quais outros povos aspiram naturalmente. A conciliação das duas versões é o maior desafio das relações sino-americanas. Nesse sentido, os EUA acham natural condicionar sua conduta em relação a outras sociedades à aceitação estrangeira aos valores americanos.

A maioria dos chineses considera a ascensão de seu país não um desafio aos EUA, mas o presságio do retorno da China à sua situação normal de país muito poderoso. Do ponto de vista chinês, são os últimos 200 anos de relativa fraqueza - e não seu atual renascimento - que representam uma anormalidade.

Em termos históricos, os EUA comportaram-se como se pudessem participar ou se retirar dos negócios internacionais conforme lhes conviesse. Na percepção que a China tem de si mesma como "Reino do Meio", a ideia de igualdade soberana dos Estados era desconhecida. Até o fim do século 19, a China tratou os países estrangeiros como vassalos de várias categorias. Nunca se deparou com um país de magnitude comparável, até que os exércitos europeus puseram fim ao seu isolamento. Só criou um Ministério do Exterior em 1861 e, fundamentalmente, para tratar com os invasores colonialistas.

Para os EUA, a maioria dos problemas por eles encontrados tinha uma solução. A China, em sua história milenar, acreditava que poucos problemas podem ter soluções finais. Os EUA têm uma estratégia que privilegia a solução dos problemas. A China sente-se à vontade tratando das contradições sem pressupor que podem ser solucionadas.

A diplomacia americana busca resultados específicos com determinação. Os negociadores chineses preferem ver o processo como a combinação de elementos estratégicos, econômicos e políticos - e buscar os resultados por meio de um extenso processo. Os negociadores americanos costumam ficar nervosos com impasses; os chineses os consideram o mecanismo inevitável da negociação. Os negociadores americanos representam uma sociedade que nunca sofreu uma catástrofe nacional - com a exceção da Guerra Civil, que não é considerada experiência internacional. Os negociadores chineses não esquecem do século de humilhações. Os líderes chineses são extremamente sensíveis à menor implicação de condescendência e tendem a considerar a insistência americana como uma falta de respeito.

Retrospectivamente, a Coreia do Norte é um bom exemplo de diferenças. Os EUA concentram-se na proliferação de armas nucleares. A China, que no longo prazo tem mais a temer das armas nucleares do que os EUA, enfatiza ainda a proximidade. Os EUA procuram uma solução concreta para um problema específico. A China considera que um resultado do gênero ficaria a meio caminho numa série de desafios inter-relacionados, sem um fim definido, a respeito do futuro do nordeste da Ásia.

Para que haja um progresso real, a diplomacia com a Coreia precisará de uma base mais ampla.

Os americanos pedem frequentemente à China que prove seu senso de "responsabilidade internacional", contribuindo para a solução de determinado problema. A afirmação de que a China deve provar sua boa-fé desagrada um país que considera estar se ajustando para fazer parte de um sistema planejado na sua ausência e com base em programas que ela não contribuiu para desenvolver. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É EX-SECRETÁRIO DE ESTADO (1973-77)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.