Tom Copeland / AP
Tom Copeland / AP

‘Evite entrar em trabalho de parto’: os relatos de pessoas que estão na rota do furacão Florence

Americanos que moram no caminho da tempestade contam o que estão fazendo para lidar com a situação

O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2018 | 11h35

Antes da chegada do furacão Florence - que tocou terra na manhã desta sexta-feira, 14 -, as primeiras chuvas já prejudicavam a Carolina do Norte, nos EUA. Americanos que moram no caminho da tempestade contam o que já fizeram ao longo dos últimos dias e o que esperam para os que virão.

“Dois meses no sonho da classe média” - Sara Rich, de Conway, Carolina do Sul

Mudei em julho para a região de Myrtle Beach para trabalhar na Coastal Carolina University. Investi as economias da minha vida em uma residência que precisava de reparos (minha primeira casa), e havia passado dois meses no sonho da classe média quando o Florence chegou. Dada a condição da residência e a minha vulnerabilidade, decidi deixar o local na terça-feira.

Coloquei meus pertences o mais alto que pude, amarrei ou levei para dentro todos os móveis que estavam no quintal, prendi e coloquei sacos de areia nas janelas e nas portas. Pensei em contratar um seguro contra inundação com meu primeiro pagamento, agendado para sexta-feira. Se houver mesmo inundações, espero que a casa pegue fogo ou que os carvalhos caiam em cima dela primeiro, ou então serei mais uma professora destituída morando do lado de fora do carro (com dois cães).

“Evite entrar em trabalho de parto” - Christine Bourdelais, de Virginia Beach, Virgínia

Mudamos minha filha para fora das zonas de inundações porque ela está na 37.ª semana de gravidez. Estou triste que possamos perder o nascimento, mas não pudemos encontrar um lugar seguro para todos nós e os animais de estimação tão perto do hospital. Ela foi orientada pelo médico a dormir, sentar no sofá e evitar entrar em trabalho de parto.

“Terminamos a última obra na semana passada” - Margaret e John Reiswig, de Oriental, Carolina do Norte

Moramos diretamente no caminho do Florence. Sobrevivemos ao furacão Irene e agora tem esse. Mas a verdadeira história é a seguinte: em maio, fechamos nosso alojamento. Nosso plano era modificá-lo, transformá-lo em uma residência particular e nos mudar. Terminamos a última obra na semana passada. Estamos prontos para a aposentadoria, ou pelo menos era o que pensávamos. Sairemos na quarta-feira e não sabemos quando iremos voltar.

“Não temos saída, então ficaremos” - Charles Cejka, de Edenton, Carolina do Norte

Infelizmente, minha família não tem dinheiro para abastecer nosso veículo. Mesmo se tivéssemos, as bombas de gasolina daqui estão se esvaziando minutos após serem carregadas. Longas filas de carros aguardam a chegada de combustível.

Vim a essa cidade para cuidar do meu pai, que foi diagnosticado com câncer, com quase nada em meu nome. Não temos saída, então ficaremos. Vivemos juntos em um trailer. Minha família e eu passamos os últimos dois dias vendo o que precisava ser guardado e embalado. Preparamos comida antecipadamente. Tivemos dificuldades em encontrar água para guardar com tantas prateleiras vazias, mas demos um jeito.

“Meu marido começará quimioterapia na sexta” - Michael Cyr, de Raleigh, Carolina do Norte

Meu marido começará tratamento de quimioterapia para câncer em estágio 4 na sexta-feira em Duke. Deixaremos nossa pequena fazenda e os gatos nas mãos de nossa família e amigos. Água, combustível, abrigo… Está tudo preparado.

A pior parte dos furacões para nós é o barulho implacável. É como 12 horas de tempestade severa ou, como ouvimos hoje, um tornado que dura horas e não minutos. É melhor estar preparado e saber o curso de mudança da tempestade do que ignorá-la ou agir como se não fosse nada e depois perceber que se cometeu um erro. Aí será tarde demais.

“A última coisa que eu precisava era ficar sem remédios” - Tyla Smith, de Hubert, Carolina do Norte

Quando o consultório do meu psiquiatra me ligou na segunda-feira para cancelar a sessão em razão da chegada do furacão Florence, entrei em pânico. Ir ao meu compromisso mensal é a única forma de conseguir minhas prescrições, três delas são para substâncias altamente controladas, e ir embora sem elas poderia levar à depressão, pânico, ataques, insônia, auto-mutilação e até mesmo suicídio.

Com duas crianças pequenas (6 e 10 anos), meu marido do outro lado do país e nenhum parente ou amigo por perto, posso ver isso como algo mais terrível para mim do que perder a nossa casa. Tenho um lugar para minha família e os animais de estimação na Geórgia, mas mesmo com uma receita impressa, não poderia comprar os medicamentos por lá. Cada Estado tem suas próprias regras para a venda deles. A última coisa que eu precisava, com a possibilidade de perder nossa casa, era ficar sem remédios.

“Saia e fique encalhado. Permaneça e fique encalhado” - Jennifer Netzer Hartley, de Charleston, Carolina do Sul

Tenho um cachorro e todos os hotéis estão lotados. É uma luta. Estarei mais em risco se ficar ou se for embora? Saia e fique encalhado. Permaneça e fique encalhado. Estou pensando em dirigir para St. Augustine, na Flórida, com um cachorro e suprimentos, mas por quanto tempo? Esta é a minha dúvida. O medo de ficar sem gasolina em uma saída em massa me assusta tanto quanto ficar. Quero ficar em um armário com meu cachorro em casa ou na estrada em um carro pequeno?

“Fizemos o que podíamos para proteger a casa”, Amanda Tungett, de Camp Lejeune, Carolina do Norte

Somos militares do Camp Lejeune, bem na rota do olho do furacão. Nossa casa está na base. Fizemos o que podíamos para proteger a casa, mas decidimos deixá-la hoje (quarta-feira) de manhã. Muitas famílias da Marinha vão ficar. Rezem por eles.

“Armazenamos tudo que pudemos” - Leigh Anne Shepard, Oak Island, Carolina do Norte

Por problemas de saúde, minha mãe (de 85 anos) e eu (de 59 anos) decidimos ficar. Temos água, baterias, lanternas, sacos de gelo e alimentos não perecíveis em estoque. Armazenamos em nossa despensa tudo o que podíamos. Nossa casa está no meio da ilha e sob estacas. Moramos em Oak Island há 20 anos. Também tiramos fotos de todos os nossos pertences e nossa casa, especialmente do lado de fora, para caso tenhamos algum dano.

“Estou na oitava semana de recuperação de uma neurocirurgia” - Elaine Underhill, de Wilmington, Carolina do Norte

Falei que estou na oitava semana de recuperação de uma neurocirurgia por problemas sérios na cabeça, andando com uma bengala e uma cinta? Também sou uma avó de 75 anos que vive sozinha. Nunca pensei que Durham (cidade da Carolina do Norte) seria uma opção, então tive uma ideia no domingo para onde ir e como chegar já que não consigo dirigir para muito longe ou muito tempo. E como eu iria preparar minha casa se não posso dobrar, levantar ou torcer? Mencionei também o quão teimosa sou e que pedir ajuda pela qual não paguei raramente é uma opção? Mas os meteorologistas ganharam. Liguei para meu irmão mais novo, que preparou minha casa, empacotou minhas coisas e me levou embora. / NYT

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.