Evo aceita negociar autonomia

Presidente diz que está disposto a revisar projeto de Constituição para pôr fim a conflito com oposição, que já matou 18

Renata Miranda, O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2008 | 00h00

O presidente boliviano, Evo Morales, disse ontem estar disposto a revisar a questão da autonomia dos departamentos no projeto da nova Constituição para facilitar um acordo com a oposição e pôr fim à crise institucional que toma conta do país. Uma maior autonomia com relação ao governo central é a principal exigência de quatro dos nove departamentos (Estados) da Bolívia. Eles iniciaram na semana passada violentos protestos que já deixaram 18 mortos. "Estamos autorizados pelos movimentos sociais a revisar o projeto de autonomia que está na Constituição Política do Estado", disse Evo durante entrevista coletiva. "Se é pela unidade nacional e pela democracia, há total abertura." O presidente disse que sua oferta era na realidade uma reiteração de convocações prévias para aglutinar o projeto da nova Carta com os estatutos autonômicos aprovados nos departamentos opositores de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando.Evo ainda insistiu que sempre manteve a opção de diálogo em aberto e comemorou os resultados obtidos na madrugada de ontem na reunião entre membros de seu governo e o representante da oposição autonomista - o governador de Tarija, Mario Cossío. Evo disse que avanços foram obtidos e confirmou para hoje um novo encontro do qual deve participar pessoalmente. Os governadores de oposição reuniram-se ontem à tarde em Santa Cruz para coordenar uma posição nas conversas de hoje.Evo também disse que não vê necessidade de estender o estado de sítio vigente no Departamento de Pando para mais regiões do país, se os opositores interromperem seus ataques. Há mais de uma semana, grupos opositores vêm promovendo violentas manifestações para protestar contra a convocação feita por Evo de um referendo constitucional para 7 de dezembro. Eles também pedem a restituição de um imposto sobre os recursos de gás e petróleo que eram repassados aos governos locais, mas foram confiscados para a criação de uma pensão para aposentados. O governo boliviano elevou ontem para 18 o número de mortos nos confrontos armados ocorridos nos últimos dias no Departamento de Pando, que está em estado de sítio desde a sexta-feira. Na cidade de Cobija, em Pando, uma pessoa morreu e seis ficaram feridas ontem após confrontos entre opositores e militares, que tentavam retomar o controle do aeroporto da cidade, que fica perto da fronteira com o Brasil. Evo disse ontem que "mercenários brasileiros e peruanos", com a proteção do governo local, participaram dos assassinatos em Pando. O governador do departamento, o opositor Leopoldo Fernández, rejeitou a acusação e criticou a "habilidade do governo para desvirtuar as coisas", afirmando que o governo Evo planejou o "massacre. Um sobrevivente disse ontem que um homem com uma metralhadora desceu de um veículo e disparou contra caminhões com camponeses que iam para uma assembléia.CONFRONTO EM ESTRADAUm confronto entre partidários do presidente Evo Morales e integrantes da União Juvenil Crucenista (UJC) tomou conta ontem da rodovia que liga Santa Cruz a Cochabamba. Cerca de 300 partidários de Evo reuniram-se na Província de Tiquipaya, a 46 quilômetros de Santa Cruz, para bloquear as rotas que levavam até a cidade. Entrincheirados atrás do bloqueio feito com troncos de madeira e montes de terra, crianças, jovens e idosos aguardavam a chegada dos militantes da UJC, que chegaram armados com rojões equipados, dentro de seus tubos, com pequenos pedaços de dinamite. O confronto entre os dois grupos durou meia hora e, após o término do embate, os camponeses que apóiam o presidente conseguiram capturar quatro dos cerca de 40 integrantes da união que participaram do confronto. De acordo com os partidários de Evo, grande parte dos rapazes que participou da ação em nome da UJC é recrutada pela organização ao preço de Bs$ 50 (aproximadamente US$10).

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