Evo recua e pede diálogo à oposição

Presidente boliviano convoca todos os partidos para que ajudem a concluir Carta, mas opositores impõem condições

Ruth Costas, SUCRE, O Estadao de S.Paulo

30 de novembro de 2007 | 00h00

Após receber embaixadores da União Européia preocupados com o "respeito às leis democráticas na Bolívia", o presidente Evo Morales fez ontem um chamado ao diálogo. Evo convocou "todos os partidos" para que terminem de aprovar a nova Constituição. Em outras ocasiões ele havia dito que queria que a Carta fosse aprovada rapidamente e "dava na mesma" se alguns partidos queriam participar ou não. Apesar do recuo, a tensão com a oposição permanece alta. O chamado ao consenso não impediu que Evo dirigisse novas críticas às autoridades regionais: "Elas falam em unidade e gritam por independência."Para dialogar, os governadores de Santa Cruz, Tarija, Cochabamba e Beni exigiram que Evo peça desculpas pelas mortes, no fim de semana, de manifestantes opositores e volte a repassar impostos às regiões. "Sim ao diálogo se ele pedir perdão pelas mortes; sim ao diálogo se voltar a imperar a democracia", disse o governador de Santa Cruz, Rubén Costas. O líder do partido oposicionista Podemos, Jorge Quiroga, teve uma reação dúbia. Ele disse que "não se pode pedir casamento se antes se cometeu uma violação", mas afirmou que aceitaria um processo de diálogo mediado pela Igreja Católica. Pouco depois do discurso do presidente, a Assembléia Autonômica de Santa Cruz reuniu-se para avançar no projeto de um estatuto próprio - uma espécie de Constituição regional - e decidiu iniciar a coleta de assinaturas para convocar um referendo sobre o documento, que deve estar pronto no dia 15. Na noite de ontem, políticos e empresários de Santa Cruz conclamaram todos os prefeitos, governadores, dirigentes de comitês cívicos e parlamentares a fazer greve de fome por tempo indefinido para protestar contra o governo. Na quarta-feira, uma greve paralisou 6 dos 9 departamentos (Estados) bolivianos - Santa Cruz, Tarija, Beni, Pando, Chuquisaca e Cochabamba. "Seguiremos lutando", disse o presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz, Branco Marinkovic. Ele também declarou "resistência civil". A greve de fome será um protesto contra a aprovação de importantes medidas no Congresso e na Constituinte, em votações realizadas sem a presença da oposição. No sábado, os parlamentares governistas aprovaram em primeira instância uma nova Constituição num quartel cercado por forças de segurança oficiais. Três dias depois, com o Congresso isolado por simpatizantes de Evo, os deputados aprovaram o uso de impostos antes repassados às regiões no pagamento de uma bolsa-auxílio para idosos e uma polêmica lei que permite à Constituinte reunir-se em qualquer parte - e não em Sucre, como estava estabelecido. Além disso, o movimento é um "repúdio" à morte de três pessoas em Sucre, em confrontos com as forças de segurança. Ontem, os policiais, que haviam abandonado a cidade depois que estudantes atacaram delegacias, finalmente retornaram. "Houve uma troca de comando e a polícia prometeu respeitar mais a população", disse ao Estado Tommy Durán, chefe do setor de segurança no Comitê Interinstitucional, que administra Sucre desde que o governador a abandonou.

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