Evo visita Temer e refaz relação com Brasil

Um dos principais críticos do impeachment de Dilma Rousseff, presidente boliviano discutirá questões econômicas durante viagem a Brasília

Lu Aiko Otta, BRASÍLIA

25 Novembro 2017 | 16h00

Uma das vozes mais fortes nas críticas ao “golpe parlamentar” que afastou a ex-presidente Dilma Rousseff, o presidente da Bolívia, Evo Morales, vem ao Brasil para uma visita ao presidente Michel Temer nesta segunda-feira, 26. Ele será recebido no Palácio do Planalto e homenageado em um almoço no Palácio do Itamaraty.

A visita estava inicialmente programada para 30 de outubro. Mas foi adiada em razão da internação de Temer, que passou por cirurgia da próstata.

“O relacionamento entre Brasil e Bolívia é um relacionamento de Estado, de dois países vizinhos”, disse o subsecretário-geral da América Latina e do Caribe do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Paulo Estivallet de Mesquita. “Seria pouco visionário dar a ele uma visão ideológica, pois precisamos trabalhar juntos em projetos de longo prazo.”

A visita de Evo é a ponta mais visível de uma “normalização” das relações com os países que atacaram o impeachment no Brasil e colocaram em dúvida a legitimidade do governo Temer. A própria Bolívia retirou do Brasil seu embaixador em agosto de 2016, o que levou o País a fazer o mesmo, mas essas medidas foram revertidas em pouco tempo.

Da mesma forma, El Salvador já enviou seu chanceler em visita ao Brasil no atual governo e o Equador trocou seu embaixador no País. Cuba mantém aqui um encarregado de negócios. Assim, avaliou Estivallet, as relações só seguem difíceis com a Venezuela. E a resistência é bem maior do lado deles. O Brasil, até mesmo, já enviou de volta a Caracas o embaixador Ruy Pereira. A Venezuela segue sem embaixador aqui.

“É um sinal de que os dois governos, mesmo não tendo o mesmo figurino político, podem trabalhar juntos”, comentou o embaixador. Ao lado do significado político da visita, os dois presidentes tratarão principalmente de temas econômicos.

O único acordo a ser acertado durante a visita será na área de Transportes, a ser assinado pelos ministros dos dois países. O objetivo é viabilizar o Corredor Bioceânico, que ligará a Bolívia ao Oceano Atlântico, através do Brasil, e ao Oceano Pacífico, com passagem pelo Peru.

Do lado brasileiro, a ideia é revitalizar a linha férrea que hoje sai de São Paulo, passa pelo Mato Grosso do Sul e chega na Bolívia em Santa Cruz de la Sierra. Seriam necessários investimentos para recuperar a malha. A ideia é que as melhorias sejam realizadas pela atual concessionária da linha, a Rumo, que negocia com o governo a renovação de seu contrato. Em troca de mais tempo de contrato, a empresa pagaria uma taxa ao governo e faria investimentos. 

A dificuldade, no caso, é a construção da linha pelo lado boliviano. Os dois governos estudarão juntos uma forma de viabilizar esse investimento. Do ponto de vista do Brasil, essa linha seria uma alternativa de escoamento para a produção de grãos do Centro-Oeste pelo Pacífico, mais próximo de mercados consumidores. Na mão inversa, a ferrovia poderia trazer fertilizante produzido na Bolívia ao País.

Temer e Evo deverão falar de outros temas econômicos, como a renovação do contrato de fornecimento de gás pela YPFB. Hoje, a estatal boliviana vende para a Petrobrás, mas há outros compradores no Brasil interessados em adquirir o combustível.

Durante a visita, deverá ser dado um impulso aos estudos sobre o potencial de geração de energia hidrelétrica na bacia do Rio Madeira. O projeto, ainda embrionário, poderá resultar na construção de usinas binacionais com possível compromisso de compra de energia pelo Brasil. 

A Bolívia quer entrar no Mercosul. Já foi assinado um acordo tratando disso, que aguarda apreciação pelo Congresso brasileiro. Entre os sócios do bloco, o Brasil é o único que ainda não deu sinal verde para eles.

Fora da agenda econômica, os dois presidentes deverão tratar do combate conjunto aos crimes na região de fronteira. Quatro ministros brasileiros estiveram na Bolívia no final de outubro para discutir ações conjuntas sobre isso.

Os presidentes deverão falar também sobre medidas de apoio à comunidade boliviana no Brasil e brasileira na Bolívia. Há cerca de 350 mil cidadãos do país vizinho vivendo aqui, sendo 75% deles em São Paulo. Na via contrária, são 35 mil brasileiros do lado de lá da fronteira, a maior parte estudantes.

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