Ex-aliados de líder líbio lideram atual oposição

Conforme perspectivas de uma queda de Kadafi crescem, atenções são divididas entre guerra e formação de opositores

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2011 | 00h00

Durante quatro décadas, a Líbia foi governada não por um regime de partido único, mas de um único homem. As cidades não tinham prefeitos, mas supostos conselhos que na verdade referendavam as decisões de Muamar Kadafi, que interferia pessoalmente nas questões mais triviais. Num ambiente assim, há um enorme vácuo de políticos - não só de oposição, mas até mesmo governistas, anulados pela figura onipotente de Kadafi. Conforme as perspectivas crescem de uma queda de Kadafi, com a intervenção árabe-ocidental, as atenções se dividem entre a guerra e os líderes da oposição em formação.

Sintomaticamente, três das mais importantes figuras da oposição pertenciam ao gabinete de Kadafi até o início do levante, em 17 de fevereiro, incluindo dois ministros: o da Justiça, Mustafa Abdul-Jalil e do Interior, Abdel-Fattah Younis. Jalil é considerado o dirigente do Conselho Nacional Líbio, embora não exista formalmente o cargo. Foi alçado ao papel de inimigo número 1 de Kadafi depois que o ditador ofereceu meio milhão de dinares (o equivalente a US$ 400 mil) por sua cabeça. Ele deixou o governo protestando contra "o uso excessivo de força" na repressão aos protestos.

Younis não tem cadeira no conselho e é bem menos respeitado que Jalil. Muitos moradores do leste nutrem desconfianças sobre a real adesão de Younis à "revolução". Ele comandava a poderosa Brigada Relâmpago, estava entre os oficiais do Exército que aderiram ao golpe de Kadafi em 1969, mas mudou de lado quando foi mandado a Benghazi para reprimir os protestos.

Ali al-Issawi também foi ministro da Economia, Comércio e Investimento de Kadafi. Na época dos protestos, servia como embaixador da Líbia na Índia, e também renunciou por causa da repressão. Ele é responsável pelas relações exteriores no conselho, e foi a Paris no dia 10, quando o presidente Nicolas Sarkozy reconheceu o governo interino como o legítimo da Líbia.

Mahmood Jibril, ex-aluno e professor de planejamento estratégico na Universidade de Pittsburgh (EUA), que também cuida de relações exteriores, estava com Al-Issawi em Paris, onde ambos foram recebidos pela secretária de Estado americana, Hillary Clinton.

Talvez a figura mais simbólica de todo o movimento oposicionista tem mantido papel discreto: o advogado Fathi Turbel. Ele defende parte das famílias dos 1.270 manifestantes executados na prisão de Abu Salim (Trípoli), em 1996. Sua prisão, em 15 de fevereiro, motivou uma manifestação das famílias dos executados. Com a violenta repressão da manifestação, os protestos pacíficos evoluíram para o confronto armado com as forças de segurança. Outro advogado de direitos humanos, Abdel-Hafiz Ghoqa, também tem tido papel de destaque no conselho. Ex-presidente da associação de advogados, Ghoga foi preso no dia 19.

O mais antigo inimigo de Kadafi dentre os líderes da oposição é Omar al-Hariri. Ele também participou do golpe de 1969 e diz ter ensinado o ditador a dirigir. Em 1975, quando era capitão do Exército, participou de uma tentativa de golpe contra Kadafi. Foi condenado à morte, mas a sentença foi convertida em prisão domiciliar em 1990. Os líderes rebeldes o promoveram a general, e ele passou à reserva. Agora faz a ligação entre os conselhos militar e civil.

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