REUTERS/Yves Herman
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Ex-chanceler critica plano de May e vai desafiar sua liderança

Boris Johnson, ex-ministro das Relações Exteriores e defensor de um Brexit sem acordo com a União Europeia, ameaça derrubar o governo da primeira-ministra

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2018 | 13h12

LONDRES - O ex-ministro das Relações Exteriores e ex-prefeito de Londres Boris Johnson deu indicações nesta segunda-feira, 3, de que pretende desafiar a liderança da primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May à frente do Partido Conservador, e com isso ameaçá-la de queda do comando do governo. A estratégia política de ruptura em relação à premiê, partidário do Brexit em acordo, foi exposta em uma entrevista ao jornal Daily Telegraph na qual o ex-ministro apontou a União Europeia como “vencedora" de todas as negociações mais importantes no divórcio com Bruxelas.

A tensão política entre May e Johnson remonta a 2016, quando os dois, ministros do então primeiro-ministro, David Cameron, tomaram campos opostos. Johnson foi líder da campanha pelo Brexit, enquanto May defendeu a permanência do Reino Unido na Europa. Com a queda de Cameron, May assumiu o poder, nomeando seu concorrente ao cargo de chanceler. Em várias oportunidades antes de se demitir, o ministro das Relações Exteriores deixou claro sua antipatia pelo projeto do governo, que previa um “Brexit suave”, baseado em um acordo de livre-comércio com a União Europeia.

A ruptura entre os dois expoentes do Partido Conservador aconteceu em 9 de julho, com sua demissão. Em uma reportagem do Daily Telegraph, o ex-ministro denunciou sua ex-chefe por seu plano de “divórcio amigável” com Bruxelas. Segundo ele, May levantou a bandeira branca com a UE, cedendo às exigências dos europeus do continente.

“O escândalo do Brexit não é termos fracassado, é nem sequer termos tentado”, advertiu o membro da ala ultraconservadora do partido. “A realidade nessa negociação é que a UE até aqui ganhou todas as disputas importantes com promessas vazias.” Para Johnson, o governo May levou um nocaute e tem 12 estrelas sobre a cabeça – uma alusão às 12 estrelas da bandeira europeia.

As declarações foram feitas um dia depois que outro ex-ministro, David Davis, até julho passado o encarregado de negociar o Brexit, também lançou a carga em entrevista  outro jornal, The Guardian. Segundo ele, o acordo em negociação entre Londres e Bruxelas neste momento é “quase pior do que permanecer na União Europeia”.

A ofensiva da ala mais crítica a Bruxelas no Partido Conservador indica que Johnson estaria se preparando para lançar o desafio pela liderança da legenda contra May durante a reunião anual, a Conservative Party Conference, marcada para Birmingham entre 30 de setembro e 3 de outubro.

Se confirmada, a disputa interna entre os Tories poderia resultar em uma substituição de liderança. Em caso de vitória, Johnson assumiria o comando do partido, e com isso o comando do governo. Como May governa em coalizão com o (Partido Democrata Unionista (DUP), os protestantes conservadores da Irlanda do Norte, duas perspectivas políticas seriam mais prováveis: ou a queda da coalizão, que obrigaria os conservadores a convocarem eleições antecipadas; ou a manutenção da aliança, já que o DUP, favorável ao "Brexit duro", estaria na mesma linha dura de Johnson. 

A questão é saber se a ala moderada do Partido Conservador apoiaria o novo governo do ex-chanceler, ou se o forçaria à queda. 

Na hipótese de eleições antecipadas, um dos beneficiados potenciais poderia ser o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, que nas pesquisas de opinião aparece em empate técnico com os conservadores.

Um dos problemas da legenda de oposição, porém, é interno: vários altos quadros do partido são acusados de antissemitismo, o que vem colocando seu líder contra a parede, incapaz de tomar uma posição clara sobre o assunto, expulsando os acusados. O líder progressista também não seria garantia de que o Brexit se desenrolaria de forma menos traumática: Corbyn é acusado por parte do eleitorado trabalhista de euroceticismo, e se recusa a defender a realização de um novo referendo sobre o tema antes da decisão final, que acontecerá em março de 2019.

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